Onésimo Teotónio de Almeida lembrando Carlos Faria

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Onésimo Teotónio de Almeida

Onze Prosemas (e um final merencório)
Vila Nova de Gaia: Ausência, 2004.


De Lisboa tu chegavas carregado de produtos farmacêuticos embrulhados em poemas e novidades das artes e das letras onde se escondiam ideias ainda mais novas e que o mar não deixava fisgar da distância das ilhas há quinhentos anos encalhadas a meio do Atlântico apesar de esse dealbar dos idos anos sessenta ser já bem tardio no calendário mundial das comunicações


Nunca te vi com nenhum frasco de comprimidos nem de xarope mas as tuas conversas curavam os nossos resfriados apanhados nas correntes de ar que o Tenente-Coronel José Agostinho sabido de meteorologias e das maleitas do clima ilhéu nos dizia temer mais que um canhão
Da tua chegada sabíamos logo pelas páginas de A União da mesma tarde onde as tuas crónicas Pânikas explodiam as costuras da nossa costumeira prosa de vaga morta
E estalavas em metáforas que poriam em pé de guerra o Abel-da-mesma vernaculíssimo autor das minhas regras de estilística soubesse ele do nosso primeiro encontro na Rua de S. João onde a tua voz de barítono metálico quase fazia ecos no Monte Brasil contra a natural proibição do mar
Esperavam-te o Emanuel Félix ainda hoje sentado em Angra a pintar poemas e a contar histórias de S. Jorge nos serões
o Almeida Firmino alentejano vestido de ilhéu e ao mar tão afeiçoado que um dia nele decidiu deitar-se para sempre
o Rogério Silva pintor de um dentro luminoso e utópico a quem tu deste safanões e contagiaste com Palolos e Bartolomeus Cid
e mais a arraia de barba ainda frágil que o Santos Barros treinava na revolta vulcânica e mobilizava para terramotos sociais e políticos levado na nossa crença de então nos poemarmas
Eu andava noutras ondas e seguia tudo de binóculos até ao momento da coragem de me atirar de mergulho a uma conversa contigo na dita rua de São João à esquina da dos Minhas Terras que o Rogério pusera num quadro pelos meus olhos acarinhado sempre que em Lisboa vou a casa de José Enes nesse tempo como tu cavador daquelas águas
Não me lembro do que então te disse mas tenho a certeza de ter sido atabalhoado para mais só muitos anos mais tarde eu viria a descobrir a tua descoberta dessa ilha mítica de São Jorge chamada e a que tu cantavas hinos loucos
Raul Brandão navegador da luz açoriana não tivera oportunidade de descobri-la porque a voz de um pastor de ar desgraçado deixara-lhe marcada o resto da sua passagem na ilha por um travo amargo trágico
E saltaram-lhe adjectivos entre desamparada isolada e triste até funesta monótona e fúnebre e tudo por causa daquela figura tão inexpressiva que a Brandão deu vontade de fugir com medo fosse coisa de se lhe pegar
Acredito que a esse descobridor dos Açores faltou o tempo que tu tiveste por isso ganhou receio de contrair a doença da preguiça que te permitiu por lá quedares-te tempos sem tempo nem relógio e marinheiro bêbado sentares-te num calhau de basalto a ouvir a gente contar histórias fiadas até ficares a poder repeti-las com sotaque e tudo feito irmão de alma
E foram tantas as que te ouvi serões e serões mais tarde como aquela do continental na ilha (serias tu?) a correr pela rua abaixo e o jorgense a perguntar filosófico

Para onde é que o sô vai co’essa pressa toda? a ilha acaba já aí!


Eu fui também anos depois alargar lá o meu reportório e ainda hoje continuo a última sendo a de um aluno também jorgense em Ponta Delgada a confessar-me o seu dilema antes da minha conferência
Eu gosto destas coisas mas está um sol tanto bom lá fora!
E muitas mais histórias que tu e o Emanuel Félix contam sempre com o mesmo carinho por essa ilha de cabelos verdes e de corpo alto (itálicos roubados aos teus poemas meu caro!) onde o vento canta na erva, nenhuma altitude nos tira do pé do mar e toda a paz me acontece
Nessa ilha parada, só o mar viaja e tu deliciaste-te quando um tal João te disse que não trabalhava mais / porque não queria morrer rico a trabalhar


Daqui de Providence estou a ouvir-te na página

Belo e admirável bom dia me deram hoje / os pescadores no Cais das velas! / Disseram bom dia com estrelas na voz / e flores nas mãos calosas

E lembras-te? de uma vez eu em condutor do jeep da Câmara contigo mais o Manuel Freire da pedra filosofal também apanhado pela ilha e ainda o Seixas Peixoto outro a não fugir com medo do contágio e hoje a namorar a ilha em quadros
Eu parei a perguntar por um miradouro a um velhote numa tasca e a resposta veio lacónica embrulhada em manha

O senhor faz como o Mário Soares Vai por aí fora vira à direita vira à esquerda toma prá direita e volta à esquerda que vai chegar sempre aonde o senhor quiser

Vai por tudo isso um abraço nesta homenagem com que em São Jorge te querem dizer

Bom dia para durar até ao cerco da noite
porque a ilha é assim: uma partida / para ficar!

Tu tens razão a ilha só tem regresso.


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Foto vista no blogue: Rama da Oliveira… “Heróis do Mar”
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