Recordar Carlos Faria, em São Jorge – de Artur Goulart

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Coloco aqui este belíssimo desenho de Rogério Silva, com tratamento cromático de minha responsabilidade porque, buscando fotos de Velas, estão todas ciosamente aprisionadas por avaros direitos de autor. Dedos de esqueleto trespassam as órbitras do olhar ingénuo… como talvez pudesse dizer Karlos Faria!…

Crónica à segunda /15

Conheci o Carlos Faria em S. Jorge, nas Velas, minha terra natal, aí pelos anos 53-54 do século passado. Eu, aluno do Seminário de Angra em férias grandes, ele, no desempenho da sua vida profissional, a dar início ao seu fascínio pela ilha, à sua “naturalização”. Nessa altura, andava eu pelo sétimo ano, o segundo do Curso de Filosofia, como eram conhecidos os três anos preparatórios do Curso de Teologia, últimos quatro dos doze do Seminário. O professor de filosofia era o doutor José Enes, figura significante do pensamento filosófico em Portugal, que nos marcou profundamente, a mim e a muitos outros, ensinando-nos a reflectir sobre o porquê, o sentido das coisas e da vida. Não debitava à toa textos de compêndio escolástico, mas persistentemente nos levava à leitura (alguém me faria hoje acreditar que eu então li de fio a pavio “O Riso” de Henri Bergson?), abria perspectivas de análise, apontava metodologias, trazia para a ribalta as modernas correntes filosóficas.

Raramente depois, nas férias, se encontrava alguém com quem trocar impressões sobre tais assuntos. O Carlos Faria era excepção.

Recordo perfeitamente no Jardim das Velas, eu e outros estudantes em férias, a que se juntou o Carlos, sentados debaixo de uma árvore de copa muito redonda, a que nós chamávamos de “sala azul”, por oposição às do outro lado, maiores, que formavam a “sala verde”, a discutir, ou melhor, a discorrer, lançar opiniões, sobre o existencialismo como se disso dependesse o gozar das férias e, porque não, o rumo da história.
O Carlos, grande conversador, podia não ter preparação filosófica, mas o seu raciocínio arguto e o discurso provocador, aliado às suas experiências de vida e de viagens, ao verbo fácil e atraente, mantinha a chama acesa até soprarem outros ventos de férias.
Representante de uma firma de produtos farmacêuticos, terminados os seus contactos profissionais, na Calheta com o dr. Fernando Tristão da Cunha, nas Velas, com o António Pamplona e o eng. José Maria Melo, na Farmácia da Misericórdia, o Carlos Faria estava em casa.
Tanto podia estar à conversa no cais com os pescadores, como sentado no adro da igreja, ou ao “canto”, numa das tantas “pedras da preguiça”, como ele lhes chamava, onde o tempo parece que não existe, num cavaqueio de histórias e ditos com algumas das figuras típicas e populares da Vila.
Ou então, voltar à farmácia, onde após o encerramento, a conversa continuava, afiada e solta, mais saudável e popular que um xarope para a tosse. Ou a refrescar o seu físico atlético, perante a estranheza dos velenses, num silencioso banho de mar à meia-noite na baía das Velas. Ou ainda, numa petiscada de lapas ou cracas e outros condimentos em casa de amigos, ao sabor das muitas e apimentadas crónicas locais. Ou porque não, nas Manadas, em casa do Padre Terra Faria, espírito irrequieto e frontal, casa sempre aberta, excelente biblioteca, cozinha livre a qualquer hora, enquanto houvesse e do que houvesse.
Aí, num espontâneo serão poético, recordo-me, o Carlos Faria, no chamado salão paroquial, pedir um cobertor para recitar. Eis que começa a declamar o Mostrengo de Fernando Pessoa, ora deitado ora levantado, tanto encenando o monstro que “rodou três vezes”, como a nau e o homem do leme, enquanto a sua voz quente ecoava “manda a vontade, que me ata ao leme, de El-Rei D. João Segundo”. Memorável.

Em S. Jorge se deleitava e demorava. Mais do que isso, na sua homenagem à ilha “São Jorge – O ciclo da esmeralda”, afirmava e assinava o registo insistente da sua pertença: “Fico em São Jorge: / Viajar sem Viajar!”.

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Évora, 1 de Fevereiro de 2010 – Artur Goulart

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