Carlos Faria fala dos Açores – Janeiro de 1970

.

.
P9134471-B.

Muita coisa se diz a respeito de Carlos Faria. Não há nada como ouvi-lo a ele mesmo, como será o caso nesta entrevista que deu ao programa “Vertical” do Club Asas do Atlântico e que foi publicado pelo Jornal “Açores”, de Ponta Delgada de 23 de Janeiro de 1970.

O poeta Carlos Faria, organiza­dor da página literária «Glacial» do Jornal “A União”, concedeu uma entrevista ao programa “Vertical” da estação emissora do Clube “Asas do Atlântico” e que, pelo seu interesse, vamos a se­guir transcrever:

Carlos Faria, sabemos que há quinze anos viaja pelos Açores, portanto devemos considerá-lo um velho amigo. Diga-nos a impressão que o domina ao to­mar o rumo das nossas ilhas.

– Viajo de facto há quin­ze anos pelos Açores, como aprendiz de escritor e como homem que quer ser do seu tempo e quer estar alerta com os problemas do seu tempo, aqui e agora, neste mundo e com este mundo.
Acontece que eu gosto dos Açores desde a infância (!), desde os bancos da Escola Pri­mária, onde aprendi a geografia física e humana destas nove ilhas.
Divido as pessoas que gos­tam dos Açores em duas catego­rias:
– as primeiras, infelizmen­te as mais numerosas, aquelas que gostam de ilhas porque as suas vidas são parecidas com ilhas — rodeadas de «eus», por todos os lados e onde uma forma de isolamento as mantém em tor­re de marfim.
– As segundas, aque­las pessoas que gostam dos Aço­res por saberem e sentirem que as populações destas ilhas preci­sam de ajuda e de amizade de­sinteressada. Estes são menos numerosos infelizmente, pois se si­tuam entre os verbos DAR e AGIR.
A que grupo pertenço eu? Per­tencerei às ilhas porque quero ser também uma ilha? Ou porque quero este Arquipélago humani­zado e cumprido dentro da ofer­ta humana e da entrega?
Trezen­tas mil pessoas não podem estar representadas simbolicamente por lagos e vales de interesse turísti­co, mas afirmadas e valorizadas pelo seu elemento humano. Hoje em dia, digo como homem que escreve e pensa, são mentirosos e inoportunos os escritores e artis­tas da paisagem física. São verdadeiros e humanos os que escre­verem ou pintarem, ou refilarem mesmo o homem açoriano no seu dramático «habitat» social e fí­sico.
Sou um amigo dos Açores mas um amigo difícil! Quero mais e melhor para os meus amigos dos Açores! Não me conformo nem aconselho ninguém que se conforme.
Os Açores não são uma par­cela romântica do País mas nove luzes acesas no palco dramático da Nação.
É uma pergunta que eu faço aos açorianos: — O que é ser vosso amigo? Gostar das vossas lagoas e picos, ou refilar o vosso clima humano?

— Como “Vertical” é um pro­grama de Artes e Letras gostaría­mos que dissesse para os nossos ouvintes algo sobre as activida­des ar­tísticas que tem realizado neste Arquipélago.

Sou artista embora, como já confessei, aprendiz de artista… Creio, formidavelmente nas bases culturais como ponto de partida para atingir outras bases.
Creio que sem se reformarem as estruturas mentais não é possível mexer nas outras. Repare-se, por exemplo, no caso desportivo. As pessoas falam a vida inteira de futebol mas como não houve pro­moção cultural continuam a fa­zê-lo em termos de agressão e clubismo — o que significa um zero total na concepção desporti­va.
Com uma base cultural essas pessoas acreditariam nisto: Des­porto é associação e alegria de viver. Uma fraternidade de valori­zação de grupo.
Tenho organiza­do exposições de pintura nos Açores, coordeno o Suplemento Literário no Jornal angrense «A União», profiro palestras e orga­nizo colóquios; colaborei e cola­boro em tudo que culturalmente possa resultar para a modificação das estruturas mentais do Arqui­pélago, o que significa — Pro­gresso, Paz, Sociedade e Amor.

— E do panorama cultural dos Açores o que pensa da Juventude de cada ilha — quanto ao presente e quanto às possibilidades dum futuro mais evoluído?

É difícil falar de Açores pois não há Açores mas nove ilhas de três distritos. Açores é uma forma cómoda de falar dos Açores, genérica mas totalitária. Digo cultural, social e até admi­nistrativamente. À parte achar um luxo exagerado o arquipélago dividido em três distritos autóno­mos. Autónomos? quero com is­to dizer há mais que nove ilhas — ou melhor há três arquipéla­gos.
O isolamento físico foi au­mentado por outros de ordem es­tranha (nem vale a pena apontá-los, pois eles são evidentes e sa­bemo-los de cor, à custa de nós próprios).
Quem está nos Açores?
As pessoas estão em Santa Maria, em S. Miguel, na Terceira, no Faial, no Pico. Quem está em S. Mi­guel, está só em S. Miguel. Quem está no Faial está só no Faial. Por outro lado o regionalismo nos Açores é uma forma agressi­va de anti comunidade.
É de lamentar que até intelectuais do arqui­pélago caiam no jogo dos regio­nalismos. Cada vez creio mais na necessidade da província dos Açores. O problema é grave e complexo, bem sei, mas também sei que sem unidade não há comu­nidade.
Quanto ao futuro do ar­quipélago ao futuro do seu progresso e da sua unidade, creio nos jovens açorianos. Tenho qua­renta anos e lamento desapontar os homens da minha idade e os mais velhos do que eu, mas são os jovens que irão levar o futuro ao seu futuro.
A Juventude não cairá no logro comum e dará o seu a seu dono.
Há uma plêiade de jovens, abertos e livres a quem é impossível travar ou impedir o caminho da arte e do homem. Penso em jovens poetas como Santos Barros, Gil Reis, Fernan­do Lima, Marcolino Candeias, Rui Rodrigues, J. Álamo, Fáti­ma Rodrigues, João Carlos de Macedo, Wilson Gama, Vítor Azeve­do e tantos outros espalhados pe­lo arquipélago.
Ultimamente em Angra do Heroísmo tem tomado vulto uma juventude literária e artística e me parece que a Ter­ceira irá revelar grandes nomes um dos quais é já evidente como poeta: José Henriques Santos Barros; e Vítor Azevedo, como artista plástico.
Devo refe­rir que é de grande valor a obra que está realizando o pintor Ro­gério Silva, com a Galeria Gá­vea. No conjunto – por não haver conjunto, o ambiente cultural dos Açores é mau, embora valores individuais dignos, se notem por todas as ilhas. Mas não chega. Não há unidade nem comunica­ção.
E deixo aqui esta pergunta — directa — doa a quem doer: Quem conhece em S. Miguel a bela e valorosa poesia do jovem terceirense José Henrique dos Santos Barros?
E quem conhece na Terceira a poesia do jovem micaelense João Carlos de Macedo? Quem?
E já agora – e porquê?

— Mas não deixe de falar-nos da sua obra, Tudo que queira di­zer-nos interessa aos nossos ou­vintes,..

Na entrevista que me pediram não me preocupei comigo nem com a minha obra porque… estava muito mais inte­ressado naquilo que pudesse in­teressar ao arquipélago.
Co­mo insiste, en­tão respondo: publiquei três li­vros de versos; «Distância Azul» em 1958; « Marinheiro Bêbado» em 1959, ambos em Angra do Heroísmo com capas do pintor Rogério Silva. E publiquei «Ros­to e Diálogo» em 1966 na Editora Lux. Fui antologiado para «Hiroxima» —- Antologia de poemas em que se comemora com repulsa, o vigésimo segundo aniversário da bomba atómica sobre o Japão., Esta antologia está fora do mercado.
Em «Rosto e Diálogo» mostro-me totalmente virado para os movimentos pós-surrealistas. Presentemente o «Movimento Pânico» movimento em que estou interessado e que reforça a minha poesia, como documento humano de combate.

.

P9074374-p

Poema de Carlos Faria publicado do suplemento “Glacial – a união das letras e das artes”, do diário “A União” de Angra do Heroísmo – Ilha Terceira, no dia 12 de Setembro de 1969.

.

.

.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s