Carlos Faria, por Eduardo Bettencourt Pinto

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Les-épaves-dorées, grafite e acrílico s/ tela, 1998 Costa Brites

Les-épaves-dorées, grafite e acrílico s/ tela, 1998 Costa Brites



Falava tão de dentro que as suas mãos cantavam. Soltava-se em gestos largos como um marinheiro cheio de júbilo por sentir os pés na terra amada. Quando vinha de S. Jorge, a ilha amada, trazia os olhos cheios de poemas, o verde fosforescente das escarpas e o secreto rumor do sol que colhia em cada rua, metaforicamente descalço sobre o silêncio.
Encontrámo-nos muitas vezes na saudosa piscina de S. Pedro quando ele aparecia em S. Miguel. Muitas vezes puxou do seu caderno de apontamentos para me ler um poema com a sua voz de barítono em descanso. Quase sempre eram poemas que ele apaixonadamente dedicava à sua ilha açoriana de eleição: S. Jorge. Enquanto lia as ondas do mar rebentavam contra as rochas negras e eu bebia as suas palavras como se fossem água.
Eu era jovem e não percebia ainda muito bem que um poeta não tem país e não tem terra. O seu coração é uma viagem constante pelo Tempo e pelas secretas geografias da vida.
Oiço os adágios de Albinoni e recordo a noite em que eu, o Carlos Faria, o Onésimo Almeida, o Vamberto Freitas e a Maria Aurora Homem estávamos numa esplanada nas Velas. O Carlos, exuberante como sempre, contava histórias naquele ritmo que era tão seu, cheio de vida, energia e esplendor. Foi um serão, como sempre, memorável.
Quando um amigo parte, tudo passa na memória como um filme. Tão pobres, frágeis e efémeros, que podemos fazer senão gastar em palavras o que nos vai no coração? No fundo, queremos apenas dizer que um amigo fica para sempre dentro de nós como uma árvore. Que as suas folhas foram todos os momentos de convívio são, e que a sua vida nos marcou e foi relevante neste mundo.
O Carlos Faria era um português antigo, nobre, cuja amizade não esmorecia como uma chama quase no fim. Tinha o abraço de sempre nos seus braços de ex-campeão de halterofilismo de Portugal, no bolso da camisa os últimos poemas, na voz um calor sem ressentimentos, sempre jovial, felino.
Sim, Carlos, continuo a ouvir-te. Continuaremos sempre, os teus amigos.
Não descanses: lê os teus poemas aos anjos que passam. Canta a ilha nessa dimensão em que o Tempo é apenas uma gota de silêncio entre os dedos.

Eduardo Bettencourt Pinto

Carlos Faria e Eduardo Bettencourt Pinto; Ponta Delgada, Julho de 1982

Carlos Faria e Eduardo Bettencourt Pinto; Ponta Delgada, Julho de 1982

NOTA: Este precioso texto foi publicado pelo seu autor no seu blogue PALAVRAS NO BRANCO
No mesmo endereço, em complemento feliz, palavras de Carlos Faria:

Flash (A União, 18 Nov. 1972)*

Karlos Faria

De avião, da Terceira para o Faial… Aqueles minutos breves por cima de S. Jorge… A ilha a correr, ela própria a correr, toda verde e esbelta, virgem e nua, de verde e azul!
Sobrevoar S. Jorge dá-me uma alegria nova e diferente. É um longo corpo de pedra, uma natureza insular que sinto à sua altura humana e geográfica. S. Jorge: a ilha, a mais ilha, a mais demorada, tranquila, isolada de silêncio, longa garupa dum cavalo de basalto! A ilha mais ilha, a povoar o mar que a viaja!
Vou de avião por cima de S. Jorge, cortando a ilha em oblíquo, assim: para que a ilha demore o mais tempo possível na sua cintura de serra… Vou de avião: mas não me sinto mais alto: estou à altura das suas fajãs, ombro a ombro com o seu povo!
S. Jorge: um grito de pedra silencioso e verde. E nuvens como punhos cerrados, depois como mãos abertas! E a ilha, sempre a ilha; coração de pedra, mas a pulsar, a bater, a mergulhar no mar… ah! como em S. Jorge o mar é menos longo, peito aberto do Topo aos Rosais…
De avião: S. Jorge sabe-me a caminhada. Pareço que caminho, toco com os lábios o Pico da Esperança, que caminho… Vou de avião… e desço descalço a Ribeira dos Vimes até à Caldeira… Vou de avião?
O meu companheiro de viagem diz: “esta ilha é S. Jorge. Estamos a passar por cima de S. Jorge”. Isto é fisicamente verdade, a verdade dum passageiro logicamente inviolável. Eu não. Eu sinto que vou por S. Jorge. Por S. Jorge estrada, freguesia, povo, canada, serra, cor, drama, silêncio, natureza, alegria, respiração. Para o meu companheiro a viagem é passar, para mim é estar.
Ele vê-se do avião e no avião. Eu vejo-me de terra e é lá que existo, e penso que os aviões são realidades falsas ou breves enganos do alto…
Não há engano possível: a única realidade é S. Jorge!

* Texto de Carlos Faria: cortesia de Onésimo Almeida e Artur Goulart

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