PEDRA DA PREGUIÇA / Texto pânico – Maio 1998 ARTUR GOULART

 

no rescaldo do V Encontro de Escritores Açorianos – na Vila das Velas, São Jorge, de 23 a 25 de Abril de 1998

Vindo de S. Jorge, do V Encontro de Escritores Açorianos, o poeta Carlos Faria foi detido para averiguações à chegada ao aeroporto de Lisboa. Após a recepção da bagagem, quando se dirigia para a saída, foi interceptado por um zeloso funcionário alfandegário, alertado por um volumoso e aparentemente pesado embrulho transportado pelo poeta.
Apesar de não ter recusado identificar-se e de ter vincado a sua profissão de viajante e o seu ofício de poeta recém-homenageado pelo município das Velas, acrescentando nada ter a declarar segundo as normas em vigor da comunidade europeia, continuou a esbarrar com a insistência do dito funcionário, alicerçada em suspeições quanto ao conteúdo do estranho volume.
Perante tal impertinência, o poeta lavrou em alto e bom som um claro e firme protesto como cidadão no pleno uso das suas faculdades e direitos, embora uma breve e esporádica alusão ao sebastianismo, durante a afirmação da sua cidadania, tenha deixado ainda mais perplexo e precavido o fiscal das alfândegas.
A pressão chegou a tal ponto que Carlos Faria, para acabar de vez com semelhante entrave, resolveu abrir ali mesmo no chão o dito pacote, meticulosamente protegido e embalado como se de rara especialidade farmacêutica se tratasse. E eis que, ao soltar-se o cuidadoso invólucro, diante dos olhos esbugalhados do fiel funcionário e perante a admiração dos que passavam e paravam atraídos pelo inopinado da cena, surge um magnífico e rectangular bloco de basalto, negro e favado, artefacto inviolado de vulcões.

– Mas isto é o quê!? – atalha nervoso o funcionário.
E o poeta, espontâneo, natural:
– Isto é uma “pedra da preguiça”!

E logo o funcionário, habituado à caça e apreensão de drogas e produtos similares, num desabafo:
– Isto deve dar para milhares de doses!!
Perante tal enormidade, Carlos Faria caiu em si e tentou, pacientemente, explicar que aquilo não era para partir, nem para moer, nem para pisar, nem para transformar em pó, muito menos para engolir, para injectar, para cheirar, e ainda menos para vender. Era simplesmente para sentar… e estar… e conversar.
Não acreditou o rigoroso fiscal, não era possível, ali havia embuste, ninguém trazia uma pedra daquelas de tão longe apenas para se sentar, com tanta pedra por aí e até de mármore. E, mais, não o deixava ir embora sem que tudo fosse convenientemente esclarecido ou a pedra fosse analisada. O poeta, visivelmente agastado, exigiu recorrer ao testemunho de amigos, que com ele tinham estado em S. Jorge e participado no V Encontro, e que provariam o seu bom nome e a sua inocência. O zeloso fiscal não perdeu tempo para demonstrar que até tinha boa vontade, comprometendo-se a contactar de imediato e por qualquer meio os nomes indicados.

Pedro da Silveira, “mestre e amigo” lhe tinha chamado Carlos Faria, foi o primeiro a tentar convencer o funcionário de que a dita pedra era como se fosse uma “mesa de amigos”, só que não era mesa, era banco, e estava tudo dito;
Madalena Ferin, senhora de muitas interrogações filosóficas e meteorológicas, não resistiu a questionar: será que cada poeta tem a sua pedra da preguiça? Mas então porquê tantos?;
Norberto Ávila, o dramaturgo, esclareceu de imediato que o basalto não tinha consciência da sua força cénica e já se imaginava a escrever “D. João na Pedra da Preguiça”;
Santos Pereira que a imprensa jorgense da segunda metade de oitocentos já sinalizava o lugar da preguiça em contexto popular em oposição aos sítios de lazer da elite velense;
e Artur Teodoro de Matos declarou, sem margem para dúvidas, que isso só teria importância se viesse alterar a moderna historiografia insular, o que não era o caso.

Um outro grupo de amigos foi apanhado, ainda em andanças literárias, a caminho do Vale de São Francisco, na Califórnia. Todos confirmaram a perfeita inocência do poeta. Embora a inocuidade da dita pedra fosse imediatamente significada:

para Eduino de Jesus era um pedaço de açorianidade na universalidade portuguesa;
para Vamberto Freitas um suplemento de cultura entre a realidade e a ficção da territorialidade;
Adelaide Baptista lamentou que não se tivesse aproveitado cabalmente a dita pedra pois o V Encontro teria sido menos formal;
Onésimo Almeida que era um “Prosema sobre São Jorge” (aqui o funcionário, agarrado ao telefone, desabafou para o lado que não admitia que fizessem pouco dele)
e Eduardo Bettencourt Pinto metaforizou que um ilhéu “sentado na pedra parece o mar” e que pediria encarecidamente à “deusa da chuva” que mais valia fizesse chover uma dessas pedras em Vancouver, do que a granizada do costume.
Do Funchal, Maria Aurora Homem prometeu levar o caso em directo à RTP Madeira, mesmo que o Governo local classificasse de cubana a dita pedra.

Perante tais testemunhos, o tal zeloso funcionário não dava sinais de compreensão ou de cedência, e eis novos contactos, desta vez para os Açores.

De Ponta Delgada, Urbano Bettencourt asseverou que as suspeições sobre a pedra se deviam simplesmente ao facto de ela provir da periferia e que já era tempo de acabar como isso;
José Bettencourt da Câmara que só vinha acentuar as potencialidades do basalto das ilhas e da Fragueira em especial, onde o saudoso maestro Lacerda tinha aurido sobeja inspiração para as sua Trovas;
Dias de Melo, que lessem ao menos o livro dele “Pedras Negras” que já lá estava tudo;
e Ângela Almeida preferiu chamar-lhe “lovestone”, resumindo assim “with tenderness” o seu testemunho.
Das ilhas de baixo, Eduardo Rosa argumentou que a dita pedra podia bem ser considerada um lugar simbólico, bucólico e existencial, que até poderia caber no discurso nemesiano;
João Afonso que, acabada que foi a baleação, deixassem ao menos sentar descansados baleeiros e poetas; Rogério Contente que se lembrassem que o Carlos Faria era tão ou mais popular em São Jorge do que o basalto e o queijo;
Borges Martins ia desfiar um impropério, mas resolveu-se por um improviso:

“Já não me espantaria
que acontecesse, chiça!
Deixem o Carlos Faria
E a pedra da preguiça!”;

Victor Rui Dores, irritado com tal abuso, que mandaria imediatamente por fax o seu protesto escrito; Manuel Tomás que no “Ilha Maior” lhe daria o devido relevo – por São Jorge!
A Fátima Bettencourt, igualmente no aeroporto, vinda dos Açores e em trânsito para Cabo Verde, nem queria acreditar no que se estava a passar. Tentou desviar a atenção do fiscal para o diálogo da lusofonia e aliciá-lo com o convívio da crioulidade, em paralelo com a pedra da preguiça. Mas sem resultado.
Entretanto, dificuldades de comunicação com a Fajã dos Vimes (porquê sempre as periferias!?) impediram o testemunho dos dois irmãos luso-americanos João Fontes e Francisco Sousa, ambos em curta vilegiatura na terra natal.
Restabelecido o contacto com a ilha, Fernando Tristão da Cunha, experiente profissional farmacêutico, elucidou que era da mais crassa ignorância confundir basalto e poetas com drogas e mezinhas;
Leonel Nunes que isso se resolveria facilmente com os celestiais sabores de umas sopas do Espírito Santo em prol da Escola Profissional; e, por fim, Frederico Maciel, sentindo-se fortemente responsável como organizador do V Encontro, procurou argumentar que, ao contrário das lapas e amêijoas que tinham épocas de defeso, o basalto não. E a preguiça também não, acrescentou, como é lógico, senão perderia o seu poder estruturante e a sua idiossincrasia filosófica.

Eu assistia apreensivo, desde o início dos testemunhos, tentando apoiar e conter o Carlos Faria e aguardando a melhor ocasião para intervir. Aproveitei a deixa do Frederico, que propositadamente lançou grande confusão na massa cinzenta do fiscal das alfândegas, para me apresentar como velho e “glacial” amigo do poeta, conterrâneo do basalto jorgense, e, elogiando o alto sentido patriótico e profissional do dito funcionário, sugerir que, se nos sentássemos no objecto em causa, talvez a experiência ajudasse a perceber a funcionalidade da referida pedra e a veracidade dos testemunhos.
Com certa relutância embora, não fosse a cedência parecer sinal de fraqueza, o funcionário transigiu, e lá nos sentámos: ele ao centro de nós os dois. Os primeiros sinais de que algo se estava a passar foi um certo relaxamento muscular, um desenrugar de faces, um respirar fundo e descontraído. O Carlos, entretanto, começara, com aquele seu jeito de descoberta, a contar histórias de mestre João, a desfiar ditos e passagens, a mordiscar costumes e inhames, a saborear poemas e vinho de cheiro.
O Tempo a passar, sem tempo, sem azedume.
Aquela gente ali, esquecida, a ouvir. A Ilha a formar-se, tranquila, bordada de fajãs. O mar em volta num abraço. Foi preciso o toque estridente do telefone de serviço, para quebrar o encanto. O zeloso funcionário estremeceu e correu a atender. Era o Seixas Peixoto, algures na noite da Figueira da Foz, a pintar. Tinha sabido de tudo e vinha pressuroso dar o seu insuspeito testemunho.

– Já não é preciso, respondeu simpático e envolvente o agente alfandegário, já está tudo explicado.

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Maio de 1998 – Artur Goulart

 

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