Excertos da tese de Lusa Maria de Melo Ponte sobre o GLACIAL

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Excertos da tese de Lusa Maria de Melo Ponte sobre o “GLACIAL, A União das Letras e das Artes” (1967-1974)

 

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A respeito da obra e de sua autora:

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O original em francês da tese defendida em Paris, Université Sorbonne/PARIS IV, em 3 de Dezembro de 2010.  Para aceder ao texto original completo, basta clicar

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Alguns dados curriculares: Plataforma DeGois


Glacial nº 1, Julho 1967

Glacial nº 1, Julho 1967

A tese de Lusa Maria de Melo Ponte sobre o “Glacial – A União das Letras e das Artes” está generosamente disponível na internet (ver endereço abaixo, para consulta do original).
Daqui as minhas saudações por esse enorme trabalho e, sobretudo, pela revelação historiada e referenciada de um verdadeiro fenómeno como foi o GLACIAL obra magna, não nos esqueçamos nunca, de CARLOS FARIA, possibilitado por um homem de grande abertura de vistas e riqueza humana fundamentada na cultura e na visão esclarecida da vida: o Padre ARTUR da CUNHA OLIVEIRA, na qualidade de Director do jornal “A União” de Angra do Heroísmo.
A prova disso está no seguinte: logo após a sua saída de director do jornal, acabou imediatamente essa formidável plataforma da sensibilidade, da cultura e da visão do mundo que foi o suplemento “GLACIAL”, que tomara eu ter um aqui perto que lhe chegasse aos calcanhares.

Chamo a atenção para a Cronologia (1967-1973) dos acontecimentos relacionados com o “Glacial” de outro dos importantes protagonistas desse fenómeno, na qualidade de Chefe da Redação de “A União”, ARTUR GOULART que, nessa cronologia nos diz:

• A 31 de Maio (de 1973), em editorial, o director de A União, dr. Artur da Cunha Oliveira, despede-se. Será substituído por Monsenhor José Machado Lourenço. O suplemento GLACIAL termina, « não vejo de que modo seria sustentável », escreve Carlos Faria, «a permanência de « Glacial », assim como a dos meus companheiros e a de mim próprio». Na lógica da mudança de direcção e de um projecto editorial, eu próprio pedi a demissão de chefe de redacção, que foi aceite.

Da tese de Lusa Ponte transcrevo um bom número de excertos,  em tradução de minha autoria feita já há algum tempo e que não pude publicar desde esse momento por motivos de grande atarefamento pessoal e familiar.
Esclareço que a escolha dos mesmos foi escolha pessoal e dizem essencialmente respeito ao suplemento “Glacial” em si, nada substituindo evidentemente uma leitura completa e atenta da referida obra.

Para orientação dos visitantes que desejem ler a obra original, o que vivamente recomendo, repito, vão indicados os números das páginas onde foram lidos os textos respectivos.

NOTA: Os destaques e os subtítulos colocados ao longo do texto são da minha responsabilidade.

Costa Brites
Coimbra/Lousã/Portugal

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Excertos da tese de Lusa Maria de Melo Ponte sobre o “GLACIAL, A União das Letras e das Artes” (1967-1974)

tradução de Costa Brites

Frase inicial da Introdução:

(página 7)

O objectivo desta pesquisa é tirar da sombra um suplemento cultural e literário, intitulado “Glacial – A União das Letras e das Artes”, que até ao presente nunca foi objecto de estudos. Criado por Carlos Faria, continental apaixonado pelas ilhas açorianas que, por razões profissionais, viajava entre o continente português e os arquipélagos de Cabo Verde, da Madeira e dos Açores, Glacial foi publicado quase integralmente no diário “A União” de Angra do Heroísmo (Ilha Terceira) de 15 de Julho de 1967 a 23 de Junho de 1973.

 
Carlos Faria nos Açores:

  • “A União”

  • a revista Gávea

  • o suplemento “Glacial”

  • a “Galeria Gávea”

(pags. 170 – 173)

A presença dos textos de Carlos Faria no suplemento Glacial foi uma constante até ao momento em que passou a ter, na sua coordenação, a colaboração de Santos Barros, Ivone Chinita e David Mestre.
(…)
A sua intervenção no diário “A União” foi muito para além do Suplemento. Encontram-se muitos artigos da sua autoria relacionados com a cultura açoriana e nacional, colaboração que começou antes do aparecimento do Glacial e que continuaria depois disso. Os “flashes” e outras colaborações de Carlos Faria nesse diário, de uma maneira geral e pelo seu conteúdo bem poderiam ter feito parte do Suplemento.
O envolvimento de Carlos Faria na sociedade açoriana ia bastante para lá da sua colaboração em “A União”. Começou, como dissemos em “Opções e trajetórias”, muito antes do Glacial, dado que foi um dos colaboradores da revista Gávea.
Por outro lado, Carlos Faria foi o instigador de várias exposições de artes plásticas, não apenas na Terceira, mas nas Ilhas de São Miguel, São Jorge e do Faial, contribuindo assim para a divulgação de artistas do continente português nos Açores.
Pedia obras aos próprios artistas ou às galerias Quadrante e 111 em Lisboa. Trazia-as à sua própria custa nas viagens de trabalho que fazia aos Açores. O Museu de Angra do Heroísmo, tal como as galerias de arte açorianas foram o cenário de tais exposições. António Dacosta, açoriano residente em Lisboa, bem como António Palolo, Mário Cesariny, Pedro Om, Rosa Ramalho, David de Almeida e vários outros nomes importantes da cena artística nacional, encontram-se no número daqueles que foram apresentados nos Açores graças à boa vontade de Carlos Faria.

A Exposição da primeira galeria de arte açoriana intitulada Gávea (1969) foi apresentada no Glacial nestes termos:

A ‘Galeria Gávea’, propriedade e iniciativa do pintor açoriano Rogério Silva , a inaugurar no mês de Março, nesta cidade, irá certamente constituir um dos momentos mais altos da vida cultural do arquipélago. Trata-se de uma iniciativa e realização de alto valor a favor de uma formação artística e atualização às novas correntes plásticas.
[…] Na sua inauguração serão apresentados trabalhos de 25 pintores das mais variadas tendências […]
«Vinte e cinco pintores estarão representados na futura inauguração da Galeria Gávea em Angra do Heroísmo»,

GLACIAL, n° 25, 31-01-69.
(…)

A Gávea foi um importante centro cultural açoriano, tanto pelo número de exposições realizadas, como pelas conferências e debates promovidos em torno de assuntos literários, culturais e científicos, bem como pelos numerosos serões musicais e de poesia. Funcionou também como casa editora, como veremos… e deu um apoio extraordinário às atividades “artísticas” desenvolvidas nas escolas. Assim a galeria iniciou trocas entre crianças em idade escolar e pré-escolar de Paris e da cidade de Angra, dinamizando um conjunto de atividades em torno do desenho e da arte infantil. Mais tarde teve lugar outro intercâmbio, desta vez com as crianças de New Bedford.

Segundo o pintor David de Almeida, a Gávea

“acabou por realizar em 1969 quinze exposições de escultura, gravura e pintura. Em 1970 as estatísticas concediam-lhe o primeiro lugar para exposições de artes plásticas e a cidade de Angra era, a seguir a Lisboa, aquela em que se realizava maior número de atividades culturais no nosso país”.

Todas estas exposições jamais teriam tido lugar sem a colaboração estreita entre Carlos Faria e Rogério Silva. Ivone Chinita, Emanuel Félix e Artur Goulart encontram-se também no número dos colaboradores mais fiéis da Gávea, afirma Santos Barros, que definia nos termos seguintes o papel que esta galeria desempenhava na vida cultural açoriana:

Neste centro cultural vivo e dinâmico se ensinou arte a muitos milhares de açorianos; se estimulou a criatividade infantil através de exposições em apoio a atividades escolares; se estimulou o aparecimento de novos pintores locais que vieram, posteriormente à partida de Rogério Silva para os U. S. A., a revelarem-se ou a confirmarem-se no ‘boom’ de artes plásticas e literatura que deflagrou nos Açores de 1971 a 1974. Esta geração, que escrevia no suplemento ‘Glacial’ e ‘Cartaz’ e pintava através de Meneses Martins, José Lúcio, Gilberto Amaral e outros, criou três células vivas de intervenção, as galerias ‘Degrau’ (Angra do Heroísmo), ‘Teia’ (Ponta Delgada) e ‘Francisco Lacerda’ (ilha de S. Jorge).

Foi a resposta ao encerramento da cooperativa livreira ‘Sextante’ que teve também um papel preponderante a nível cultural nos Açores. (…)

pags 179 – 180:
“…Carlos Faria conhecia o meio cultural e intelectual de Lisboa. Quando chegava às ilhas trazia consigo as novidades literárias e artísticas da capital, mesmo as da política e, além disso, quadros para as exposições de arte e livros – bastas vezes proibidos pela censura – destinados a amigos açorianos.

Numa época em que os açorianos estavam muito mais distanciados do mundo, o papel de Carlos Faria como intermediário entre os Açores e o continente, isto é, o mundo, ganhou – na nossa opinião – uma importância acrescida. A este respeito diz-nos Artur Goulart:

Tanto frequentava o Botequim da Natália, como frequentava o Café Veneza ou outro qualquer. Aquelas tertúlias literárias, o Carlos frequentava-as. […] foi numa dessas tertúlias que encontrou o Assis Esperança e o João de Melo […]. Quando o Carlos chegava a Angra era um aparecer de novidades, era como se tivesse…a gente agora tem Internet, não sabe o que é isso. Naquela altura, o avião não era a mesma coisa. Era raro. Era o barco, de quinze em quinze dias ou de oito em oito dias. Portanto, quando o Carlos chegava, trazia tudo o que era fresco de notícias literárias e não só.

No bar de Natália Correia, aberto num bairro tradicional de Lisboa desde 1971 e frequentado por muitos oposicionistas ao regime político da época, e o círculo do Café Veneza situado na Avenida da Liberdade, muito ativo durante os anos 50 e 60, fez certamente conhecimentos que utilizou para o Glacial. Se é consensual que a ação de Carlos Faria como animador cultural foi inestimável, é sobretudo o seu papel de intermediário entre a ilha e o mundo que os ensaios de Urbano Bettencourt, Santos Barros, Onésimo Teotónio de Almeida e Pedro da Silveira assinalam, como testemunham as seguintes afirmações:

Carlos Faria tornou-se simultaneamente um intermediário entre os círculos literários e artísticos de Lisboa e das ilhas. Devido à dificuldade de circulação de determinada informação escrita por causa da censura, os contactos pessoais eram importantes para quem queria estar ao pé dos acontecimentos «lá fora», mesmo para se ter acesso a livros retirados da circulação. Poeta, entusiasta das artes plásticas e de tudo o que seja cultura, Faria tomou a si o papel de agente de ligação, entre Angra e Lisboa, não só dos intelectuais açorianos cá estabelecidos, pondo-os a colaborar na imprensa insular conjuntamente com os lá fixados, mas também promovendo a participação de artistas de fora nas exposições “gaveanas” (repetidas às vezes na Horta, em Ponta Delgada e até na vila das Velas).
Pedro da Silveira, Antologia de Poesia Açoriana…, op. cit., pp. 37, 38.

página 182 :
De família humilde e sem grandes habilitações escolares, Carlos Faria não tinha grande capital cultural de tipo institucional. O seu capital cultural resultava principalmente do seu autodidatismo, do tempo e da energia que nele aplicou. Também não possuía capital económico elevado. O que Carlos Faria utilizou em benefício do Glacial foi sobretudo o seu capital social, isto é, o conjunto de relações socialmente úteis… (…)

“…Foi a sua profissão, mas também o seu carácter muito comunicativo, que lhe permitiram acumular esse forte capital social. Convivendo com a fina-flor dos escritores, poetas e artistas do continente e dos Açores, Carlos Faria escolheu geralmente autores credíveis, tanto nacionais como regionais, para colaborar no Glacial, (…)

suplemento “Glacial”, propósito e atitude

  • Agitar, contestar, fazer pensar

  • Provocar, transgredir…

(página 187 – 191)
O Glacial apareceu como projeto pessoal de um indivíduo – Carlos Faria – animado por uma vontade primeira: a de se empenhar a fundo na vida cultural de um espaço que conhecia desde há mais de dez anos e ao qual se afeiçoara – Angra do Heroísmo em particular e os Açores em geral. Desejo de se empenhar, disse no discurso feito na sessão de homenagem que lhe foi dedicada e no qual passa em revista os acontecimentos culturais que dinamizou na Terceira.
Até à publicação do Glacial o investimento de Carlos Faria na vida cultural de Angra do Heroísmo e dos Açores tinha sido pontual, na medida que não tinha um projeto de intervenção cultural para lhe dar mais consistência: colaboração escrita na revista Gávea (1958) e no diário “A União”, e realização de algumas exposições de arte em várias ilhas dos Açores, como já mencionámos. A partir do Glacial esse investimento ganhou novo impulso e o suplemento tornar-se-ia o ponto central da sua intervenção cultural na sociedade de Angra do Heroísmo, bem como na a sociedade de certas ilhas açorianas.

A esta primeira determinação convém juntar uma outra, e regressamos por isso às afirmações de Carlos Faria no discurso da sessão de homenagem. Qualificou a intervenção global que desenvolveu em Angra do Heroísmo como trabalho de agitação cultural e acrescentou que essa agitação cultural arrasta consigo agitação social.
A arte em geral e a poesia em particular são sinónimos de perigo, agitação, revolução, afirmou ele nessa intervenção.
Nos nossos encontros com Carlos Faria, recordou o primeiro número do suplemento consagrado ao poeta António Botto, expulso de funcionário público por causa da sua homossexualidade assumida. Poeta maldito, viu a segunda edição de “Canções” (1922) apreendida pelo estado.
Porquê António Botto e não qualquer outro? Perguntou. O objectivo era provocar, transgredir : « romper com um grande preconceito por causa da homossexualidade de António Botto (…) para pôr as coisas no lugar”

 grafismo de Glacial

  • Frases em epígrafe

  • Citações no corpo das páginas

Lembrou-se também das epígrafes no cabeçalho do suplemento que ele próprio escolhia e cujo objectivo imediato era o de despertar a reflexão do leitor, de o levar a aprofundar os assuntos mais diversos. Poucas palavras lhe serviam para definir as suas intenções ao escolher essas frases emblemáticas: “agitar, contestar, fazer pensar”.

No que respeita às citações no corpo das páginas do Glacial, usa o termo “picar”.
“Não houve Glaciais inocentes”, afirma Urbano Bettencourt na intervenção que fez quando da homenagem a Carlos Faria, e concordamos plenamente com ele.
Com efeito as frases em epígrafe e as citações no corpo das páginas de Glacial são disso exemplos frequentes e o primeiro número dedicado ao poeta António Botto, bem como o sexto dedicado à mulher na literatura confirmam-no, desde o começo das edições do suplemento. Não é nem à reabilitação da Obra nem do Homem que se pretende, escreveu Carlos Faria no número consagrado a António Botto, mas principalmente celebrar a eternidade da Obra e do Homem que a construiu.
Subentende-se nesta declaração que, segundo o coordenador do suplemento, a única resposta que merecem os detratores da obra e da vida de António Botto é serem confrontados com a imortalização do Poeta e do Homem que ele foi.
A página conta com a colaboração de três autores açorianos: Almeida Firmino, Carlos Faria e Armando Côrtes-Rodrigues.
A presença deste último poeta, conservador, católico e franciscano num número consagrado a António Botto é, na nossa opinião, o cúmulo da provocação, tanto mais que o seu poema (cujo título é chocante) lhe é abertamente dedicado:

Grito das Ilhas
Para a lembrança poética do poeta António Botto

Todo este Mar é distância…
Tudo se torna amargura:
Sonho vago, que perdura
Dos longes da minha infância,

A vida toda: só ânsia,
Tormento de mais ternura…
Sempre no fundo tristura
Tecida na inconstância.

Não calarei minha voz,
Que nela vibra e ressoa
Quanto grita dentro em nós.

Nem se perde o meu cantar:
Tudo o que digo reboa
Na voz imensa do Mar.

S. Miguel dos Açores 1967

Armando Côrtes-Rodrigues
Glacial, n°1, 15/07/1967

Testemunhos de autores nacionais e estrangeiros como José Régio, Raul Brandão, Camilo Pessanha, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Miguel de Unamuno, Luigi Pirandelo, Rudyard Kipling e Jorge Amado, bem como uma pequena citação de Garcia Lorca prestam homenagem ao poeta que Glacial apresenta assim numa pequena biografia:

António Botto surgiu nos meios literários nacionais à volta de 1920, escandalizando gente convencional e limitada e criando grande escândalo, com a sua vida e com a sua obra.
Em 1921 publica ‘CANÇÕES’, que levou a um ensaio de Manuel Teixeira Gomes (antigo chefe de estado) e traduzido para o inglês por Fernando Pessoa. As ‘Canções’ foram apreendidas em 1924!
«Corpo», GLACIAL, n° 1, 15/07/1967

Na passagem abaixo, verificamos o lado transgressor que assume este número de Glacial pela importância atribuída ao efeito da vida e da obra de Botto sobre aqueles que vivendo conforme as convenções sociais sentem a falta da liberdade e são, por este motivo e segundo palavras textuais, “limitados”. Limitados nas suas escolhas, limitados no seus “corpos” incapazes da escolha da liberdade. “Corpos” é o vocábulo escolhido como título desta nota biográfica; palavra que devemos interpretar como metonímia do Homem na sua totalidade e, por isso, do conjunto que constitui a obra e o seu criador.

O sexto número assume também carácter provocador.

Carlos Faria confia a Beatriz Rodrigues Barbosa a coordenação desse número dedicado à mulher na literatura.
As escritoras escolhidas foram Safo, Florbela Espanca, e Simone de Beauvoir e no editorial, assinado pela coordenadora podemos conhecer as razões da escolha. Retomam a questão da Liberdade, com acento na força de poderem exprimir o seu talento livremente e além disso, sublinha, o empenhamento de Simone de Beauvoir na luta pela libertação feminina:

Três mulheres que não estiveram inseridas nos mesmos contextos sócio-económico-culturais porque viveram em espaços e tempos diferentes [… ] e que têm um grande talento e uma grande liberdade ao exprimi-lo. Mais do que isso em Simone de Beauvoir: a reivindicação da liberdade para a mulher alienada.
Beatriz Rodrigues Barbosa, GLACIAL, n°6, 20/1/1968

A escolha recai portanto, mais uma vez, sobre personagens polémicas pelos seus compromissos de vida, tendo embora talento inegável e escrita de incontestável valor. E isso apesar do escândalo que rodeou as suas vidas e a sua obra.
Safo, acusada de marginal e de gostar de mulheres por aqueles que – no passar dos séculos – colocaram acento sobre a sexualidade mais do que sobre o papel social que desempenhou na Ilha de Lesbos ou no seu talento como poetisa lírica, numa época em que todos os outros autores se dedicavam à epopeia e à tragédia.
Florbela Espanca, mulher que se casou três vezes e se matriculou na faculdade de Direito de Lisboa numa época em que as mulheres que iam para a Universidade eram muito raras, demonstrou assim, segundo João Gaspar Simões, o carácter emancipado e livre da sua personalidade.
Simone de Beauvoir, figura de proa do feminismo, autora de “O Segundo Sexo”, livro que fez escândalo em 1949, proscrito pelo Vaticano e do qual Carlos Faria transcreveu uma frase lapidar como citação colocada ao cimo da página:

“…Como consequência a mulher conhece-se e escolhe-se não enquanto existente por si mesma, mas tal como o homem a definiu”.
Simone de Beauvoir, GLACIAL, n°6, 20/1/1968

Escolhendo personagens tão polémicas do ponto de vista da moral instituída, Glacial põe em questão, numa atitude manifestamente antimaioritária, valores aceites como naturais e satisfaz as motivações do seu coordenador – a provocação.
É certo que em nenhum texto Carlos Faria manifesta a intenção de agitar, provocar ou transgredir. O nosso ponto de vista resulta da leitura do suplemento e do diálogo que com ele mantivemos, nos encontros havidos. Tal motivação que de facto não surge de modo explícito no Glacial, constitui no entanto um dos panos de fundo sobre os quais se construirá progressivamente o suplemento. Todavia compete-nos acrescentar que a agitação política não estava nas suas intenções, no que toca ao Glacial.
Com efeito, no nosso primeiro encontro com Carlos Faria, negou a ideia de intenção política no seu projeto, mesmo que, na sua opinião, todo os atos são, de resto, atos políticos. Tanto mais que publicara em “A União” – como nos disse – lampejos, textos muito curtos e incisivos de crítica social e política. Apesar do que nos disse pode ler-se, desde o primeiro número de Glacial, frases como estas:

Tenho direito às minhas ideias embora não tenha direito à minha vida
GLACIAL, n°1, 15/07/1967

Quando se caminha para a frente ou para trás, ao longo dos dicionários, vai-se
desembocar na palavra : – terror às vezes penso: o lugar é tremendo.
Herberto Helder, GLACIAL, n°4, 23/12/1967

Quem ousa dizer tirano // Sem ter violado o medo?
Maria Teresa Horta, GLACIAL, n°7, 09/02/1968

Apetece cantar, mas ninguém canta. // Apetece chorar mas ninguém chora. // Um fantasma levanta // A mão de medo sobre a nossa hora.
Miguel Torga, GLACIAL, n° 8, 16/03/1968

Estas epígrafes nos números de Glacial publicados antes da chegada de Marcelo Caetano ao poder, podem ser interpretadas como uma referência mais directa ao regime político do Estado Novo e devem ser, na nossa opinião, analisadas num contexto político em que os jornais estavam submetidos à censura prévia e em que as autoridades de segurança pública tinham o poder de ordenar o encerramento das tipografias. Além disso, num país onde os livros, não sendo sujeitos a censura prévia podiam facilmente ser apreendidos depois de publicados pela DGS (Direcção Geral de Segurança Pública). Mesmo se Carlos Faria negasse que a contestação do regime político era um dos seus principais objectivos, há indicadores desde os primeiros números de Glacial que indicam, de forma clara, qual era a posição do Suplemento face à opressão que exercia o regime do Estado Novo no país.

14 FLAMULA

Glacial nº 2, de 11 de Outubro de 1967

Ao ter escrito no texto « Flâmula”, que seguidamente analisaremos, que “o presente perdeu os dentes”, pensamos que o coordenador do Suplemento se referia à situação política da época e colocam-na em questão, tomando assim posição contra a ausência de liberdade que amordaçava o país e o regime que era responsável por isso. Julgamos poder acrescentar que Carlos Faria vai mais além nessa frase, porque ela subentende um país que não tem coragem, que não reage, que se cala, que não “morde”. Por consequência Carlos Faria toma também posição contra a passividade que ele pensa existir na sociedade portuguesa e confere ao Suplemento uma energia de contestação política que o acompanhará até ao fim… contestação que também é, de uma certa maneira, provocação e transgressão.

Assim, a prática textual que marca os primeiros tempos do Suplemento sugere a presença de um coordenador inclinado para posições arriscadas, capaz de aproveitar para o Glacial um espaço “dos possíveis” que lhe permitam, senão todas, pelo menos um bom número de audácias. Por outra parte, se se compara esta prática com as intenções de Carlos Faria atrás mencionadas, ela mostra-nos, como sublinhámos na introdução… que o sentido de colocação nem sempre é premeditado, mas resultado de uma face que se conjuga, frequentemente de modo intuitivo… (no espaço possível que lhes oferece a sociedade).


 Glacial, sonoridade penetrante que enregela e paralisa…

 

(página 193 – 201)

Para além dos primeiros números de Glacial que servem de apresentação do Suplemento e remetem para um certo número de valores, o nome, pela sua função descritiva e as suas nuances conotativas remete, ele próprio, para valores.

(…)

O vocábulo “Glacial” introduz, ao que nos parece, um valor conotativo bastante poderoso no título do Suplemento. A sua aparição suscitou entre nós um interesse especial, tanto pela sua força sonora como pela significação; “glacial” – “que tem a temperatura do gelo, que penetra vivamente, duma frieza que enregela, desanima, paralisa”. Procurámos pois saber porquê e como tinha surgido a ideia deste termo e perguntámos a seu respeito a Carlos Faria. Afirmou-nos querer uma palavra diferente, capaz de marcar a diferença relativamente a outros suplementos culturais e literários, susceptível de chamar a atenção dos leitores, uma palavra que não se esquece. Acrescentou que, quando escolheu o nome Glacial não havia nas suas intenções conotação política, filosófica ou outra. Todavia, no número dois há o que poderemos chamar uma declaração de princípios na qual Carlos Faria estabelece, quanto a nós, uma ligação entre o sentido do nome e as intenções subjacentes do Suplemento:

Uma página de ‘Literatura e pensamento!’
Um arrepio enorme, glacial ! Uma página de Literatura e Pensamento, e nós com uma
crise enorme de pensamento e literatura! Como vamos nós pagar este atrevimento?

«Flâmula», GLACIAL, n° 2, 11/10/1968

No extracto acima transcrito o autor evoca a palavra « glacial “ para sugerir o “arrepio” que devia provocar a audácia, a impertinência, o paradoxo de uma página de literatura e reflexão num momento que julgava de crise literária e de pensamento. Com efeito (…) Glacial será, do princípio ao fim, um Suplemento audacioso e provocador, não apenas pelos assuntos que abordou mas também pela publicação de um certo número de autores e de colaboradores.(…)

(páginas 195 – 198)

Na sua obra sobre revistas literárias portuguesas, Clara Rocha declara que uma boa parte das que nasceram na província durante o século XX foram criadas com desejo de afirmação local contra a centralização cultural das grandes aglomerações urbanas, como Lisboa. Frequentemente, os seus nomes, lembrando a localização geográfica do local onde existem, são indicadores disso. Todavia existe, segundo a autora, outras revistas de província, entre as quais as revistas da Madeira e dos Açores, que nascem do desejo de estabelecer pontes com os centros culturais, devido a um complexo de periferia ou a uma espécie de mal estar insular sufocante. A autora cita, como exemplo, o caso de Búzio, da Madeira 1956; Movimento (Madeira, 1973) e Aresta (Açores 1980).
Como procuraremos demonstrar, o caso de Glacial não corresponde verdadeiramente ao que Clara Rocha afirma a propósito das revistas açorianas. É interessante assinalar, desde logo, que o título e o subtítulo deste Suplemento não têm nenhuma referência geográfica. Também não sugerem um desejo de afirmação local contra os centros urbanos do continente, Lisboa em particular, como se passa – segundo Clara Rocha – com uma parte considerável das revistas literárias portuguesas com origem na província. Por outro lado não nos indicam um desejo de estabelecer pontes com Lisboa ou outro centro cultural do continente português por causa de um qualquer complexo de inferioridade insular. A perspectiva de Carlos Faria será diferente e os aspectos que acabámos de sublinhar indicam isso mesmo. Essa perspectiva está presente nos textos-manifesto que vamos analisar de seguida.
É no segundo número de Glacial, no texto intitulado “Flâmula” que o coordenador expõe os seus pontos de vista e os seus objectivos sobre o que deve ser uma página de artes e letras, imprimindo assim ao Suplemento as linhas de orientação que foram seguidas pelo Glacial até ao seu fim. Trata-se de um título apropriado, tipo declaração de princípios, em jeito de proclamação e, de certa forma, de um texto em que Carlos Faria agita a chama que o inspira, “chama-esperança” se nos lembrarmos das suas próprias palavras: “Proponho a esperança, mas é preciso remar”. Este título faz apelo à simbólica do fogo e da bandeira. “Flâmula” que quer dizer bandeira, insígnia, estandarte em forma de chama. Neste texto “fundador“, podemos assinalar primeiro o paradoxo de querer criar uma página literária e de reflexão num momento de crise da literatura e do pensamento. Como pagar essa audácia, essa impertinência? Fazendo a apologia do passado e de uma literatura local tão pobre como a agricultura do arquipélago?
Subentende-se no texto que a resposta é negativa e a prática cultural posterior do Glacial demonstrá-lo-á. Uma página dedicada às Artes e às Letras deve assumir a responsabilidade de ser um campo de batalha, de ter a realidade como referencial e “Não pode ser um cemitério de ‘vivos’ ou um clarim a anunciar os mortos”; com efeito uma página deste tipo não saberia ser um espaço de “saudade” e regionalismo, um espaço fechado, vivendo do “balofo compadrio de compadres e comadres”. É pois fazendo apelo ao Futuro e ao Universal que Carlos Faria comunica ao leitor uma das motivações centrais do seu projecto. Concebe o Futuro como uma oposição ao presente do qual tem uma percepção negativa. “O futuro é a Estrada Larga, e o presente perdeu os dentes”, afirma Carlos Faria em “Flâmula”. Concebe o Universo como uma obrigação evidente e como um direito que é de todos. Segundo ele o Universal não se opõe ao regional, mesmo que esta dimensão não se encontre esquecida no seu texto. “Desejamos prevenir e afirmar que uma página literária dum jornal da Ilha Terceira, será uma Página Literária da Ilha Terceira, quando o for sem geografia! Isto é: aberta ao Diálogo Nacional e Universal!” diz a propósito da relação universal/regional.

E aqui a expressão «sem geografia” significa sem dúvida “aberta a todas as geografias”, incluída a açoriana como teremos oportunidade de provar ao longo de todo o nosso trabalho. Aliás a expressão não deve ser interpretada unicamente no seu sentido literal, mas também na sua significação metafórica. – de abertura a todas as “geografias” ideológicas,

Estamos de acordo com Urbano Bettencourt quando afirma que a expressão em questão deve ser interpretada no sentido da “abertura a todas as escritas do mundo, sem fronteiras ideológicas e políticas, o que era uma afirmação da liberdade da arte e da literatura”. Urbano Bettencourt situa esta posição de Carlos Faria no contexto açoriano da época, tal como se confirma na seguinte afirmação:

Compreende-se a ênfase de Carlos Faria numa página literária sem geografia – o outro discurso da época exigia essa demarcação frontal (na década de 40, p. ex., advogava-se a criação de suplementos literários ‘exclusivamente açorianos’).

Com efeito, durante os anos 50 a polémica em torno da existência e das características que devia ter uma literatura açoriana tinha estado bem na ordem do dia e pensamos que Carlos Faria desejou marcar a sua posição de modo claro perante aqueles que pudessem ainda defender uma literatura de cor local, fechada sobre si mesma, como meio de afirmação da identidade açoriana no espaço nacional português. O quarto número do Glacial, dedicado à poesia insular constitui o primeiro exemplo desta abertura ao exterior. Nesta antologia encontra-se representada, através da voz dos seus poetas a poesia dos arquipélagos dos Açores, da Madeira, de Cabo Verde, São Tomé, Canárias e Cuba. Seis anos mais tarde, uma nova antologia de poesia testemunhará ainda essa abertura ao Outro; um dos últimos suplementos, o nº 102, será consagrado à nova poesia angolana.

 Fraternidade, Imensidade, Liberdade

 

(páginas 198 – 200)

O texto que abre este número 4 intitula-se “Glacial” e é complementar de “Flâmula” (já atrás referido). Mantém o tom da proclamação e Glacial reafirma a sua concepção universal, desta vez através da simbólica do Mar – vasta extensão sem fronteiras que pertence a todos, onde não tem cabimento a “geografia política”; caminho de aproximação, Fraternidade, imensidade, Liberdade.
Desta forma Carlos Faria apresenta, no Suplemento, o tema da Fraternidade Universal, como referência mais vasta onde se situa a prática do diálogo que pretende estabelecer com o “Outro”. Na medida em que é pela “poesia das etnias” e de nacionalidades diferentes que ele apresenta e defende o ideal da Fraternidade, atribui ao literário um lugar privilegiado na construção deste ideal que pressupõe que nenhuma cultura (e nenhuma literatura) se sobreponha a outra.
Outro aspecto importante é anunciado ainda em “Flâmula”. Na última parte do texto Carlos Faria toma o exemplo de Pedro da Silveira enquanto poeta e homem, e esclarece a concepção de arte que estará presente no Glacial. Vê na poesia de Pedro da Silveira uma escrita empenhada na qual se pode descobrir uma mensagem social e artística que se situa na linhagem de Antero de Quental. Pedro da Silveira é um exemplo a reter porque, segundo ele, o exemplo que o poeta dá na qualidade de Homem é inseparável do exemplo que o Homem dá na qualidade de poeta. O Homem e o Poeta são indissociáveis, sendo a obra portanto, também ela, indissociável do Homem segundo a concepção do coordenador de Glacial. Julgamos até que neste caso que a palavra “Poeta” designa todo o Artista.

Carlos Faria regressou diversas vezes, nos artigos por si publicados no Glacial, a este entrelaçamento que tornam a Vida, o Artista e a sua Obra tão complementares. Afirmou assim a propósito da publicação de “Silêncio Vertical” do jovem Borges Martins:

“Tornar vertical o silêncio é tarefa difícil. Equivale a humanizar e a povoar a solidão. É o que o poeta consegue na sua construção de poeta com arquitetura humana.”
Carlos Faria, «Silêncio Vertical», GLACIAL, n° 71, 19/11/1971

Curiosamente o nome « Flâmula » reapareceu no número de homenagem ao escritor Assis Esperança, dando um título aos comentários de autores e da imprensa por altura da publicação de “Pão Incerto” (1964). Trata-se de um escritor comprometido, apresentado aos jovens como um exemplo a seguir por Carlos Faria e os outros colaboradores da página. Transcrevemos aqui algumas das apreciações escolhidas pelo coordenador para apresentar o escritor:

É, entre os romancistas nacionais, o primeiro a dar-nos, numa pintura forte, exata, o calvário da mulher que trabalha.
(in Diário de Notícias).

Observador atento, simultaneamente implacável e sensível, descreve, analisa, historia, sem complacências de conformista nem demagogias para sedução da galeria, a sociedade do nosso tempo, nos seus diversos meios, nas mais variadas circunstâncias, com propósitos sociopsicológicos.
(Cristiano Lima).

A abertura ao exterior que Carlos Faria defendeu como linha de orientação do Suplemento não exclui, como já assinalámos, a identificação com outro referente: os Açores. Aliás, a publicação de novos poetas açorianos era uma das suas intenções primeiras, tal como nos disse quando do nosso primeiro encontro.
Assim, convém acrescentar às motivações que mencionámos uma outra, também presente nos primeiros números de Glacial. E isto, embora não apareça desenvolvida nos dois “textos-manifesto”. Esta outra motivação apareceu explicitamente na rubrica “Uma Página Juvenil”, em que o Glacial anunciou um número unicamente consagrado aos jovens poetas dos Açores e a intenção de incluir, em todos os números do Suplemento, os seus poemas e contos, com a advertência de que a qualidade dos trabalhos seria o único critério a levar em conta para a seleção. Insistiu, nessa rubrica, na colaboração dos jovens do arquipélago e, por consequência, Glacial anunciava-se – olhando o futuro – como espaço aberto à expressão literária dos mais jovens.

 

A atenção e o chamamento à juventude

Páginas 200 –

A atenção prestada aos novos valores regionais iria ser, como veremos, uma constante do Suplemento, constituindo o ponto de apoio em torno do qual construiu a sua abertura ao exterior, isto é, ao referente cultural açoriano. Aliás, por altura do 5º aniversário, o coordenador reafirmou a importância concedida a este investimento na juventude como preocupação dominante de Glacial desde o início. No texto intitulado “Glacial” que constituiu, de resto, o segundo balanço feito por Carlos Faria, pode ler-se:

O Arquipélago está mais rico e mais novo. Sobretudo de juventude e de consciência de juventude. Se já dominaram culturalmente o arquipélago, ao longo da sua história, gerações de velhos ou de passadistas nunca como agora o presente foi tão futuro!
«Glacial», in GLACIAL, n° 83, 17/11/72

Também a concepção universal concebida por Carlos Faria como diálogo com o “Outro”, que defendeu desde o início como uma das linhas fundamentais de orientação do Suplemento, foi mantida até ao fim. Podemos confirmar isso neste breve extracto de um artigo de Santos Barros, saído num dos últimos números de Glacial:

Actuando num meio pequeno, esta pequena folha que é Glacial, tem procurado estar atenta ao que se vai passando, com uma vontade enorme de acertar e a certeza de não se fechar na ilha e nas ‘ilhas’.
«Teste e Versos para andar na rua. O autor apresenta o autor»,

GLACIAL, n° 103, 06/05/1973.

O apelo feito à colaboração da juventude açoriana foi importante se analisada de uma outra perspectiva, porque contribuiu para estabelecer uma ligação direta com o público que o Suplemento procurou fizesse intervir na sua prática. Aliás, esse apelo foi renovado dois anos mais tarde e alargado a todos os escritores açorianos independentemente da idade, num artigo em que Carlos Faria fez o primeiro balanço da atividade do Suplemento.
Este desejo de estabelecer uma ligação com os leitores manifestou-se também no segundo número de Glacial, no qual, para além do apelo feito aos jovens, o Suplemento se dirige a um público mais vasto. Pedindo à imprensa e à rádio a sua divulgação, Glacial abriu um inquérito junto dos seus leitores, a fim de saber que escritor português escolheriam para prémio Nobel da literatura. Os resultados do inquérito seria publicado seis meses mais tarde.

 
“Glacial é calor” – ato pleno de comunicação

Página 201

“…Glacial assumiu-se plenamente como ato de comunicação: na sua estrutura interna, pela “circulação” que facilitou entre o dentro e o fora e pela disponibilidade de se abrir “a todas as geografias”, e igualmente na medida em que procurou uma relação de proximidade com o público.
“Glacial é calor”, escreveu Carlos Faria no texto “Pum***”, em que apresentou um dos jovens que respondeu ao apelo lançado em “Uma Página Juvenil”, acrescentando que, contrariamente ao que se passava nos outros suplementos literários, Glacial pertencia a todos menos aos que se julgavam o centro do mundo.
“Pum***” é um texto provocador a vários níveis: primeiro pelo título “ruidoso” anunciante de um Suplemento que não iria passar incógnito, igualmente pelo seu conteúdo pânico.

(…)

 
citando Urbano de Bettencourt

Página 202

Fazendo da abertura ao exterior e ao interior uma das suas linhas essenciais de orientação, Glacial restabeleceu, na nossa opinião, ao nível de um suplemento cultural e, por isso, numa unidade distinta da obra literária, a dinâmica que caracteriza, segundo Urbano Bettencourt, o processo literário açoriano: a tensão entre o interior e o exterior, entre o espaço fechado da Ilha e a vasta extensão do mundo, entre o perto e o longe, presentes na poesia e na ficção açorianas, como já vimos.

Tensão que resulta segundo Urbano Bettencourt, da consciência já anunciada por Gaspar Frutuoso e mais tarde pelos “contistas da Horta”, que a mistura entre o dentro e o fora é sempre um factor de enriquecimento.

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