O movimento Gávea/Glacial

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Desenho original de Rogério Silva: “garça voando em agonia”
Visitar por favor: Rogério Silva visto pelos meus olhos

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O movimento Gávea/Glacial – Açores, do fim dos anos 60 para todo o sempre!…

NOTA PRÉVIA

Gávea/Glacial nasceu idêntico à vida, à realidade dos problemas e à autenticidade sensível do pensamento e do sonho. Na boca da sua gente liberdade queria dizer – Liberdade! Fraternidade queria dizer trato generoso de verdadeiros Irmãos! Fome, opressão e guerra queriam dizer tudo aquilo que há de pior no mundo e Ilha sem fronteiras queria dizer que o mar não fazia diferença nenhuma, estava ali apenas para ser o que é – estrada majestosamente bela navegável para todos os destinos!…
Temas que, sendo possíveis de tratar pela literatura e sendo possível relacioná-los com a entidade relativa de cada pessoa e de cada lugar, não é aí que começam nem é aí que acabam. Isto é, para a Gávea/Glacial e sua gente as palavras eram feitas da mesma carne e do mesmo sangue de toda a gente de todos os lugares; as palavras sorriam, clamavam ou carpiam as mesmas graças e penas que as da vulgaríssima e geral humanidade. E a consagração da literatura ou da sua autoria, acontecendo, teriam que medir mãos com algo mais intensamente nobre e desejável: a beleza, a verdade, a justiça e a paz propriamente ditas. As palavras eram, por conseguinte, um meio e não uma finalidade em si!…
Quem mergulhar nos melhores momentos de Gávea/Glacial, concluirá que nem sequer foi estritamente português ou estreitamente açoriano porque as suas fronteiras eram as da universalidade aberta a todos os horizontes, a todas as línguas e a todos os modos de ser.

Foi isso que teve de belo e raro e nem é justo nem bonito dizer que acabou mal, antes do tempo etc. Gávea/Glacial durou intensamente tudo o que podia durar!… E porquê? Porque a gente que tinha dentro, ou as pessoas que o tinham na vontade e no ideal… nem procuravam nem tinham poder.

Vamos continuar a falar no “movimento” Gávea/Glacial? Porque não há-de ser assim?
Alimenta a memória das coisas intensamente acontecidas pela vontade de acreditar nelas e, melhor do que o sentimento saudoso, bem pode sugerir recomeços, aconselhar a fé, estimular a vontade….

Saudemos então com alegria e honra o movimento Gávea/Glacial, os seus portentosos inventores e os miraculados acompanhantes, entre os quais me conto com convicção. As coisas belas e verdadeiras são assim: habitam somente no coração das boas vontades. Às vezes nem chegam a nascer. O acontecimento Gávea/Glacial nasceu, durou e ainda dura como suponho e gostaria de provar por aquilo que aqui já está e continuará a ser dito.


Amistosas saudações a todos os que aqui vierem

Costa Brites
escrevendo na Lousã, ilha verde longe no sopé de uma grande Serra

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“Angra – Açores” serigrafia de Rogério Silva 1990, medidas exteriores 68,5cm X 48,25 cm, col. Onésimo Teotónio de Almeida; imagem gravada: 49,5 cm X 31,75 cm.

Estas muito breves memórias a respeito da vida cultural açoriana no período em que lá vivi entre Agosto de 1968 e Março de 1971 pretendem afirmar apenas uma anotação subjectiva a respeito de duas figuras muito interessantes que tive a felicidade de conhecer de modo perfeitamente casual.
Este texto foi transcrito, quase tal e qual, da página de minha autoria sobre Rogério Silva, cuja epopeia – embora muito diferente em quase tudo da de Carlos Faria – corre paralela à dele em tão largo trajecto – que faz sentido ser publicado aqui.
Noutro local descrevo circunstanciadamente o meu relacionamento com o poeta Carlos Faria, que conheci em Portugal antes de ter saído para os Açores com 26 anos, casado de fresco e para o primeiro emprego estável que me permitiu constituir família.
Essa narrativa “Carlos Faria e eu” tenta completar de modo explícito outro lado da história largamente convergente com esta.

Vou descrever aqui o modo como conheci Rogério Silva e como modestamente participei no devir em Ponta Delgada do extraordinário sonho a que meteu ombros – a abertura/saga da Galeria de Arte Gávea de Angra do Heroísmo.
Tem todo o cabimento referir, a esse respeito, a ocorrência do que alguém chamou o “movimento Gávea/Glacial”, derivado da convergência de dinamismos de dois cidadãos convictos da importância da cultura e da arte nas suas vidas, determinados em levar ao maior número de pessoas o eco dessa lúcida paixão.

Esses dois cidadãos foram Carlos Faria e Rogério Silva e – no que toca ao período de anos a que diz respeito este trabalho – não faz senão sentido narrar o seu percurso conjuntamente.

Como se vê na contra-capa do catálogo a seguir reproduzida, na circunstância o da minha própria exposição em Ponta Delgada realizada em Dezembro de 1970, a galeria era designada de modo um tanto perifrástico: “Gávea – galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural”.
O desejo de Rogério Silva era não deixar o mínimo espaço para a dúvida e marcar de forma inequívoca o teor moralizante das suas muito claras opções. Chamo também a atenção para a expressão “Gávea/Glacial”, abundantemente presente nas iniciativas da parceria de Rogério Silva/Carlos Faria e de um certo número de colaboradores que o primeiro dos dois se esforçou por ir associando – às vezes apenas nominalmente – à realização das mesmas.

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A designação Gávea/Glacial foi amplamente adoptada, bem como se observam designadas no topo do catálogo de uma exposição as duas entidades componentes, primeiro a Galeria Gávea, e o suplemento Glacial logo depois.

Por uma questão de rigor no registo dessas impressões uso essencialmente documentos editados pela própria Galeria Gávea, livros e catálogos e alguns originais que possuo do suplemento literário Glacial que me foram sendo oferecidos por Rogério Silva e por Carlos Faria, protagonistas essenciais – cada um a seu modo – desse fenómeno tão envolvente e cativante.
O meu propósito não é tanto esclarecer como registar as emoções e percepções em que estive envolvido, referenciando o valor e as qualidades de pessoas que – pelo sentimento e pela sensibilidade – estiveram perto de mim de diversas formas. Procurarei acrescentar aquele pouco que geralmente os estudos académicos e os relatos de “connoisseurs” têm dificuldade em abordar, por serem do domínio da afectividade, da emoção e da solidariedade, factos pouco afins da preclara intelectualidade e respectivo prestígio.
Carlos Faria e Rogério Silva para mim não são “dramatis personae” vigilantes no horizonte distanciado do mito; são criaturas cujas mãos segurei nas minhas com alegria e saudade – conforme a ocasião – e cuja circunstância foi avaliada pela medida exacta das minhas próprias alegrias, dificuldades e esperanças.
Conheci vários outros açorianos sensíveis e cultos que enriqueceram muitíssimo a noção que tenho da humanidade e que se encontraram em posição de contemplar de perto a realidade, os riscos e as contingências do sonho e da empresa. Aqui e ali vou mencionando os seus nomes que, se não são muito numerosos, são autenticamente centrais em terem participado nos mesmos trabalhos ou terem sonhado os mesmos sonhos
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O notabilíssimo trabalho que estes dois dinamizadores culturais, Rogério Silva e Carlos Faria, levaram a cabo ao longo de um período de vários anos teve como pano de fundo um ambiente humano e institucional muitíssimo raro no nosso país, dado que – felizmente longe de Lisboa – produziu um micro-clima de tolerância e receptividade que deu passagem auspiciosa ao exercício e à divulgação pública das suas actividades.
Rogério Silva, natural do Faial e activo em Angra do Heroísmo e Carlos Faria, continental que desde cedo começou a visitar os Açores quando ainda marinheiro militar da armada portuguesa, conheciam-se bem e conseguiram configurar uma singularíssima conjugação de iniciativas.

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O primeiro como pintor e galerista e o segundo como frequentador e transitário de artes e culturas entre o continente e as ilhas – agora já na qualidade de viajante de produtos químico-farmacêuticos e – muito principalmente – como coordenador de um suplemento cultural que veio a tornar-se um dos mais interessantes fenómenos da animação cultural de Angra do Heroísmo e de terras e pessoas muito para além do arquipélago açoriano.

Rogério foi o produtor idealista da asa instrumental do movimento, a “Galeria de Arte Gávea” – muito original e convictamente classificada como não comercial ­– que foi inaugurada em Angra do Heroísmo em Fevereiro de 1969.
Ao amigo Carlos coube a tarefa de convocar a literatura e o pensamento, projectando no espaço e no tempo as palavras de ordem da fraternidade e da liberdade, o teor poético dos espaços sem fronteiras, o sonho da cultura indómita sem açaimos nem ferrolhos, o delírio magnífico da paz, a tontura saudável da vontade insubmissa e o sabor inconfundível da interdita provocação.

O nome “Gávea” – concebido com desígnios de intencionalidade simbólica – surgiu em 1958 com a fundação de uma revista do mesmo nome por Almeida Firmino, Emanuel Félix e Rogério Silva.

O cesto da gávea, como poiso alto e ferozmente desconfortável colocado no cimo dos mastros dos navios, era o único processo conhecido para ver ao longe no mar, “esclarecidamente”, o que interessava ser visto. O heroísmo desamparado dos “gajeiros” e o lugar onde se amarravam foi designação propícia para as coisas difíceis de sonhar e mais difíceis de fazer…

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A página de literatura e pensamento do jornal “A União” que viria, a partir do terceiro número publicado, a ser designada como “Glacial – a união das letras e das artes”, coordenada por Carlos Faria.

O suplemento Glacial, coordenado por Carlos Faria, começou a ser publicado pelo jornal “A União”, também de Angra do Heroísmo em Julho de 1967, pouco antes de eu ter chegado aos Açores. Manteve-se até Março de 1974, altura em que se modificaram as disposições do episcopado Angrense,  já eu estava em Coimbra há três anos.
Visto o aparecimento e manutenção por sete anos do Glacial na perspectiva da situação político-social da época, podemos pensar numa raridade de raridades. Eu não vivi em Angra mas sempre ouvi falar de um certo grupo de professores do seminário daquela cidade adeptos e seguidores do Concílio Ecuménico Vaticano II, realizado nos mesmos anos sessenta, com alguma visão aberta dos factos. Desse mesmo grupo, minoria de uma outra minoria – surgiu um homem de personalidade e cultura, o padre Artur da Cunha Oliveira, que foi designado director do diário “A União”, sendo chefe de redacção Artur Goulart. Foram estas pessoas a chave mestra da prodigiosa entrada em cena de Carlos Faria e do seu formidável “Glacial”, suplemento de artes e ideias como não havia nem há em todo o Portugal, que eu saiba, num século e num milénio diferentes.
O prodígio que eu chamo aqui prodigioso durou sete anos e a prova está no facto de que, tendo sido “removido” o padre Artur Cunha de Oliveira e colocado na posição de director um padre mais clássico e consentâneo (já longínquo estava o Ecuménico Concílio), o suplemento Glacial evaporou-se.

Carlos Faria iria, pouco tempo depois, ser afastado dos Açores sob a ventania de Abril. Ficou sem o bom emprego que tinha e passou à viagem comercial num pequeno Renault 5, de Norte a Sul do País, onde não há padres da Cunha Oliveira a dirigirem jornais de mente aberta!…
Nessa altura já Rogério Silva se encontrava nos Estados Unidos da América, em New Bedford, tentando reorganizar a sua vida; ia longe a vertigem da Galeria Gávea.

Depois de este intervalo de “contextualização”, prossigamos:
Desconhecendo totalmente o ambiente açoriano, cheguei a Ponta Delgada em Setembro de 1968. Só mais tarde, devido ao desenvolvimento de várias camaradagens de natureza cultural é que comecei a ter conhecimento da “Gávea” e do “Glacial”, que Carlos Faria se encarregava de me enviar pelo correio no exercício de um dinamismo comunicativo que lhe era muito próprio. Aliás, creio bem que os jornais de Angra do Heroísmo não chegavam a Ponta Delgada, sendo certo que até os jornais do continente eram distribuídos ali com atraso, o que se acentuava muito nos períodos de mau tempo (e não fazia diferença nenhuma…)

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A galeria de Arte Gávea, empreendimento de um homem modesto, derivou de um daqueles gestos que só uma enorme necessidade ou um sonho desesperado de realização pessoal podem justificar.
O pintor Rogério Silva, seu fundador, não hesitou em comprometer o seu bem estar e a sua independência económica familiar para abrir as portas da Galeria, esforço que se extinguiu três escassos anos depois, quando se viu obrigado pelas circunstâncias a emigrar para os Estados Unidos da América para recolocar a sua vida nos carris da dignidade mínima e pagar as dívidas contraídas para a realização do seu sonho.
Este pormenor foi-me referido por ele mesmo quando nos visitou em Coimbra em 1978, e várias vezes foi confirmado pelo poeta e amigo Carlos Faria nos contactos que fomos mantendo, ao longo dos anos.
Carlos Faria também não teve uma vida inteiramente isenta de preocupações, dado que a sua entidade patronal ao tempo das viagens para os Açores, cessou a sua actividade – como tem acontecido em Portugal a tantos milhares de empresas – com manifestos inconvenientes para os seus colaboradores mais modestos. Já não muito jovem teve que continuar a trabalhar, como é evidente, viajando pelo país e vendendo o mesmo tipo de produtos que vendera nas ilhas.
Quando regressei dos Açores, em Março de 1971, a Galeria Gávea estava ainda activa e nunca consegui compor uma visão esclarecida da fase do seu encerramento e da saída de Rogério Silva para os Estados Unidos da América. O artista estava certamente preocupadíssimo com muitas coisas, era muito parco em falar de si e não escrevia cartas.

As diversas notas biográficas que estão publicadas a respeito de Rogério Silva são sumaríssimas e não são dados pormenores a respeito do encerramento da Galeria de Arte Gávea. Conhece-se a data da sua inauguração, mas nunca vi dados exactos do seu encerramento que presumo ter passado incógnito como aliás se diz do próprio falecimento do artista.
Muito menos conheço detalhes de algo que só os seus amigos mais chegados e familiares mais íntimos podem ter conhecido, consequência do muito trabalho, da falta de apoios pessoais e monetários e do imenso transtorno de – já na idade madura – ter tido que zarpar do seu torrão natal para governar a vida num país em tudo terrivelmente diferente. Valeram-lhe a destreza manual e os afincados hábitos de trabalho de quem descansou pouco na vida…
Rogério Silva regressou dos Estados Unidos na década de 90, e Luís M. Arruda em nota biográfica diz mesmo que a sua morte em 2006 ficou marcada “por um profundo silêncio”. A companheira muito querida partiu antes dele, o que muito agravou o resto dos seus dias.

Com Carlos Faria, companheiro persistente dos entusiasmos da Gávea mantive alguns contactos ao longo dos anos, dado que – com o hábito enraizado que tinha de contactar os amigos – nos foi visitando em Coimbra.
Estivemos com ele várias vezes já nos anos 90, em Alvide – Cascais, onde residia. Vê-lo em Lisboa era difícil, porque o seu trabalho era a viagem, e trabalhou até muito tarde na vida.
As coisas relativas a toda a actividade cultural açoriana, tudo o que dizia respeito à Galeria de Arte Gávea, nas palavras de Carlos Faria tinham um colorido completamente diferente. Pessoa de compleição atlética e de vitalidade fora do comum, tinha um carisma contagiante e um gosto enorme de comunicar.

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Último número de Glacial publicado pelo diário “A União”, o centésimo oitavo, que saiu à rua a 23 de Junho de 1973.

A iniciativa de falar aqui sobre o “movimento Gávea/Glacial” procura recuperar – com fundamento no que tive o privilégio de ver, ouvir e viver a respeito de tal acontecimento – factos observados e as muitas palavras com Carlos Faria e Rogério Silva. Por uma questão de método e de rigor baseio-me exclusivamente nos materiais que fui recolhendo, oferecidos principalmente pelo Rogério, na visita que nos fez a Coimbra em 1978.

Trazia consigo um bom pacote de coisas, gesto baseado na opinião que tinha a meu respeito, confiando que eu não deixaria – do modo que me fosse possível – de lhe dar o devido destino, divulgando-os. O que acabo de dizer não é apenas matéria de suposição. Ele exprimiu esse desejo, com confiança de amizade.
Nesse tempo não havia, nem se sonhava com a internet e aprender a trabalhar nela, fazer tratamento de textos e imagens etc., tem sido trabalho de anos, curiosidade, interesse e muita teimosia.
– Foi só agora, Rogério, desculpa lá pela demora!…

Tarde, é o que não vem, como dizia o meu saudoso pai. Dizendo isto, tenho que acrescentar que a inúmera quantidade de objetos que fazem parte das minhas recordações, pela prisão afetiva a que muitas delas me obriga, nem sempre se encontra bem arrumada, embora tenham sobrevivido vivos e presentes nestas letras e no pensamento que as diz. Uma mudança recente de residência agravou um pouco as coisas, mas o principal já foi reunido e aqui se mostra. As coisas mais secretas e raras, ainda por cima, costumo guardá-las com tanto cuidado que, quando as procuro, não as encontro. Há uma pequena maquette, amorosamente construída por Rogério Silva como modelo dos expositores das suas exposições e que, tão bem guardado que está, ainda não reencontrei! É uma preciosidade do gesto meticuloso e aplicado de Rogério Silva. Vou continuar a procurá-la, pois que amorosamente a guardei durante mais de quarenta anos.

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Da multidão dessas recordações, o mais antigo e certamente muito raro documento aparece agora aqui. Tem data de 4 de Setembro de 1969 e assinala, no que me diz respeito, a primeira presença numa realização da Gávea. Escuso de dar os detalhes dado que são perfeitamente legíveis no documento reproduzido, frente e verso. A parte da frente (em cima) está encurtada na altura, na zona vazia de conteúdo. É um acontecimento plural e ostenta já um numeroso grupo de pessoas envolvidas e colaborantes. Desenho e pintura de: Fausto Boavida, Margarida Tamegão, Costa Brites, Norberto Ávila, Ezequiel Batoréu e Rogério Silva. Poemas de Jaime Salazar Sampaio, Pedro Alvim, Vitorino Nemésio, António Reis, António José Maldonado e Maria Alberta Menéres. Fotografia de António Armando Machado, José Pinheiro, Mário Silva e Rafael Azevedo. De todos estes gostaria de saudar daqui, com admiração e amizade o insígne dramaturgo Norberto Ávila, com quem também tive o prazer de encontros posteriores em Coimbra.
É evidente que as realizações da Galeria Gávea, tendo o trabalho realizado transportado consigo o melhor que tem a arte e o seu sentimento, não envolveram figuras de proa que estejam consagradas nos mais importantes Museus e galerias de investimento ou cujo transporte obrigue a seguros equivalentes no valor ao preço que por eles pagam os colecionadores abastados. Digo isto sem complexos de estar a diminuir nem um pouco o interesse e o valor da iniciativa que se impôs como articulação de vontades, como agremiação de ideais, algo raro e tão próximo do impossível como as melhores casualidades e os mais felizes achados. Rogério Silva foi a personalidade absolutamente improvável, a exceção à regra. Outra pessoa teria o bom senso e o sentido prático de tomar certas disposições que o acautelassem a si e que – dentro do mais contingente – alargassem o futuro do seu projeto. Outra pessoa faria isso e porventura muito mais e muito diferente. Mas não seria o mesmo nem parecido, porque o combustível da generosidade é raro e a ingenuidade das pessoas que se arriscam a tudo como se arriscou Rogério, normalmente, não duram no palco dos acontecimentos e esfumam-se como visões. Não são reeditáveis ou recicláveis, como demonstram os fatos.
Esclareço que, se falo no “movimento Gávea”, não me afetam motivações saudosistas nem as lamentações habituais de que tudo acabou mal, embora tenha a noção concreta de que o arquiteto principal da ideia sofreu muitíssimo com certas faltas e rigores vividos, tendo acabado solitário e com as mãos vazias. Digo as mãos, que o seu coração, embora triste, jamais se encontrava vazio.
Julgo até, sem exagero nenhum, que o “movimento Gávea” atingiu todo o êxito possível e que o seu promotor atingiu resultados preciosos com meios escassíssimos, embora pagando um preço que atingiu as raias do sacrifício pessoal e familiar pela natureza quase dramática da entrega ao que ele tomava como uma missão. Se falo assim é porque sinto e sei.

Os contornos do movimento

Numa variedade suficientemente eloquente de depoimentos é possível descortinar ideias fundadoras de uma ação determinada e de uma visão definida do que estava a ser feito e de quais eram os objetivos desse fazer.
Num belíssimo documento inserido no catálogo da Exposição na Ilha de Santa Maria ­– Club Asas do Atlântico, realizada já em fins de 1970, Carlos Faria fala primeiro em grupo, mas acaba por referir o termo movimento. Se assim não foi cientificamente, era sincero desejo de muitos que fosse e, por isso, assim me apraz designá-lo.

O eco do movimento, portanto, aparece sempre envolvido por uma cintilação muito própria e tudo o que se lhe associa tem características que – no pluralismo e na diversidade – não deixa de ser coerente na abertura, na disponibilidade e no entusiasmo. Obedeceu, mais pela via intuitiva do que pela via racional, a um modelo sem mancha dirigido à valorização das ideias e das pessoas. Não houve pressupostos de “tomada de poderes” ou de defesa de interesses pessoais em Carlos Faria ou Rogério Silva, que não tinham vocação nem era capazes disso. As finalidades a atingir tiveram apenas o defeito límpido da sua vulnerabilidade.
Uma ideia com tais características conseguiu perdurar na memória e atingiu, senão o melhor ou o ideal, atingiu o essencial. O texto acima referido é citado mais abaixo, dentro da ordem cronológica, por abordar o termo “movimento” e por ter as características de um discurso fundador.

Extinto o projeto fugaz da revista “Gávea” (e não foram poucos os projetos fugazes como este que conseguiram o seu lugar na história das ideias) o nome foi sendo mantido na reserva moral de quem, mais tarde – em 1967, fundou a “Galeria de Arte Gávea”, que funcionou na residência do seu fundador situada na Rua Pêro Anes do Canto em Angra do Heroísmo, tendo tido filial na cidade da Horta.
Fiz uma incursão internáutica e lá está a rua estreita bem perto de tudo, abaixo da Rua do Morrão, atravessada pelas Rua dos Italianos e pela Rua do Armador, através das quais se verá, lá em baixo, a Baía de Angra e toda as suas larguezas.

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Não sei se haverá documento ou declaração pública que tenha consagrado a fundação da Galeria de Arte Gávea, mas a mim me parece um condigno retrato do que ela representa nos seus valores fundamentais o texto, de autoria de Artur Cunha, inserido por Rogério Silva no catálogo de celebração do primeiro aniversário da Galeria, em Abril de 1970, assinalado com brio por três exposições (Fernando Grade, António Carmo e Rogério Silva) e outros acontecimentos de calorosa participação, entre os quais o lançamento de um livro de poesia muito sentida e obediente a preocupações da mais intensa humanidade, “Digo Fome” de Ivone Chinita. Lendo o texto de abertura do referido catálogo, passo a citar:

«Gávea» já era conhecida do tempo em que um punhado de jovens intelectuais e artistas Açorianos pretendeu dar forma a uma ideia, que sabia mais a sonho que a realidade. Arte nos Açores e por Açorianos ? Arte jovem e de jovens que, emergindo da superfície plana, de uma vida local chã, sem outra preocupação que não fosse a de contemplar o Passado, repetindo-o, se punham agora à cata de novos horizontes da Ideia e da Forma? Exatamente. E «Gávea», mesmo que tenha falecido como revista de Arte, não desapareceu como espírito e movimento. Reaparece tempos depois, desta vez em Galeria de Arte. Faz agora um ano. E o acontecimento pede que o celebremos, tanto pelo que representa na vida social do meio Açoriano, nomeadamente o Angrense, como pelo que de efetivo conta já em seu favor. «Gávea» é hoje uma Galeria viva de Arte. Viva, pelos Artistas que por ela passam. Viva ainda, pelo público que dela desfruta num crescente cada vez maior. Pode alguém achar presumido isto de uma Galeria de Arte em cidade tão remota que mal a conhecem os naturais, que fará os estranhos! Tão remota e tão pequena em vista de tantas que há por esse mundo fora e de cujas Galerias de Arte nos falam quase diariamente os meios de comu­nicação social. Mas em Arte não creio eu que caiba presunção. A Arte pode ser tudo, menos isso. O Artista mostra-se. E porque assim é, não presume. Ademais, onde quer que vivam e se encontrem os homens, aí haverá de certo lugar para a Arte nas suas mais variadas formas. O homem não dispensa a Arte, sob pena de brutalizar-se. Desde que se reconheceu como ser-que-sabe-que-é, logo achou meio de se exprimir, criando. Criando a forma que mais adequada lhe parecia, para se revelar e, possivelmente, comunicar com os mais. A Arte é principalmente criação. Como tal, é fecunda e fecundante. Predispõe para novas e mais variadas criações. Está na linha da ação. Só nisto encontraríamos já sobejos motivos para a justificação da sua existência. Mas há mais: Todo o Artista que modela a sua Arte, modela-se a si mesmo, na procura eterna de uma forma ideal jamais lograda. Num esforço contínuo de superação. O que não deixa de traduzir-se em benefício coletivo, na justa medida em que, entre os homens, há mais um que quer ser Homem. Depois, a Arte, naquela mesma proporção em que procura atingir o cerne da Humanidade, aquilo que há de mais real e comum em cada homem, não tem fronteiras de espécie alguma, e pode oferecer-nos a todos um ponto-neutro de convívio e de diálogo. De encontro. Aproxima os homens. Quero dizer: as pessoas.E logo que mais próximas, estas não deixam também de se tornar mais humanas. Os monstros, de todos os tamanhos e feitios que nos tem oferecido e inda agora nos oferece a História, são gente para quem a Arte, na verdadeira aceção da palavra, nunca existiu. Não tanto pelo que ela nos possa oferecer de emotivo. De estético − digamos. Mas por tudo quanto representa de esforço de superação, de desalienação e de abismar-se alguém nas profundezas do Ser onde se encontra a Ideia e donde nasce a Forma, que é Verdade. Outras razões haverá que podiam vir à colação para justificar a existência entre nós de uma Galeria de Arte. Mas penso bastarem-nos estas por agora, no limiar de mais um ano de «Gávea» que promete continuar a trazer aos Terceirenses, e também já aos Faialenses, num descortinar de horizontes próprio da semântica do seu nome, e até da posição do seu sítio, as praias onde arriba a Arte dos nossos dias, e levá-los, a Terceirenses e Faialenses, a tomar contacto fácil com esses que por mil formas de criação artística «se vão da lei da morte libertando», e libertando-nos, afinal, a todos nós, num propósito que tem tanto de humano como de educativo.”

Não tenho conhecimento da personalidade de Artur Cunha, que deve ter sido figura conhecida da vida cultural de Angra. O texto que redigiu foi bem ao gosto de Rogério Silva, dado que enuncia uma variedade de princípios e de ideias que correspondem com fidelidade ao seu sentir. É um texto generoso e imbuído do conceito de Arte como veículo produtor e transmissor de valores humanos e como elemento de aproximação entre as pessoas, isto é, com o sentido de missão e com preocupações morais que eram traços dominantes da personalidade de Rogério Silva. Passo a citar momentos especiais em que se encontra explícito a ideia de entusiasmo e sentido participativo que se foi solidificando, usando apenas os documentos que foram publicados no âmbito da sua própria atividade.

Fernando Grade, texto da sua exposição “De teoria das multidões, até onde?”; Angra do Heroísmo Abril e em Maio de 1970 na Horta:

“…Procurem-me nessa «teoria», se querem ter alguma coisa a ver comigo. Caso contrário, perder-se-ão entre as luzes apagadas de uma cidade submarina. Mas espero que me encontrem. É que, apesar de tudo, de todas as crenças ou maldições (pessoais ou não), apenas nesse encontro a arte se salva. Só sendo encontrado pelo público, o artista pode ser salvo, salvando então os outros… Esgravatem, meus amigos, na carapaça do escaravelho. Procuremos nós todos — eu e vós — o modo mais sincero de resistir ao nevoeiro. Evite­mos, pois, que a ilha se afunde…

Álvaro Perdigão, texto sobre António Carmo, na exposição que fez no mesmo local e data:

“…A espontaneidade, a juventude e sobretudo a força determi­nativa dos desenhos de António Carmo expostos agora, na «Gávea», Galeria de Arte de Angra do Heroísmo, irão merecer certamente o maior interesse dos habitantes desta cidade. Cidade que à problemática das Artes Plásticas tem vindo a dispensar um louvável e invejável acolhimento…”

Álamo Oliveira, texto sobre a exposição de Rogério Silva realizada no mesmo local e data:

“…Trinta desenhos de distorção harmoniosa compõem a colec­ção de trabalhos que Rogério Silva nos atira aos olhos da alma. Interessa-nos, de sobremaneira, VER bem, o que implica necessariamente uma disposição psíquica de QUERER…” (…) “…Aceitemos, na íntegra, a interpretação formal sobre este nosso pequeno «país» que Rogério Silva nos oferece. A mensagem, na Arte, é encontrada individualmente. E cada um pode trazer uma mensagem muito sua, só sua. Pois, à Arte assiste o condão da independência de gestos e de pensamentos desde que seja manejada por um hábil «ilusionista». Técnica? para que falar dela se o desenho, como comunicação, não pode ir além de si mesmo? (E para que falar do artista se se trata, neste caso, de Rogério Silva?). VER E QUERER! — eis tudo…”

Um mês antes deste primeiro aniversário, no catálogo da inauguração da “Gávea” na cidade da Horta, o Padre Júlio da Rosa aproveitou a ocasião para, de modo breve, acentuar a mesma gama de valores que Artur Cunha registou:

No enleio do bem que se difunde, a arte, manifestação do belo, é o maior prazer de que se gosta e de que se vive. Possuir um templo de arte, por minúsculo que seja, é alimentar a chama do belo e enrique­cer o homem e a vida. Eis o que nasce e para o que nasce —a Sala da Galeria de Arte «GÁVEA», na Horta. Sem alarde, é facho que se acende para rumo e moldagem de novos, é braseiro que se ateia para conforto ou diletantismo e diálogo de todos. Com ela desponta mimosa esperança na Ilha, que abre os bra­ços à mensagem da arte e ao mundo, que lha devolve, para os esponsais com o progresso dos tempos. Bem hajam o mecenas e o artista, a mensagem e a arte, nossos amigos!”

Esta exposição na Horta era coletiva e os nomes apresentados eram o notabilíssimo Bartolomeu Cid, Rogério Silva e… eu mesmo. Ninguém em todo o Portugal se atreveria a construir esta coabitação de artistas de tão diferentes craveiras. Falo especialmente no que me dizia respeito a mim. Discuti brevemente esse facto com Rogério Silva que não acolheu as minhas reservas. Do texto acima transcrito do Padre Júlio Rosa, registo uma frase escrita em que refere os “mecenas”. Desculpem-me o exotismo mas julgo ter sido um bem intencionado “wishful thinking” (ou tomar desejos por realidades), dado que não me parecem ter-se manifestado em suficiência na carreira da Gávea.
Não por terem sido palavras dedicadas a uma exposição que levou o meu nome, mas por terem sido escritas já em 1969 por Carlos Faria, encontramos um discurso bem mais tonificado nas suas determinações do que aqueles que acima podemos ler, no catálogo da exposição que a Gávea realizou com “formotemas” meus em Janeiro de 1970, em Angra do Heroísmo. Do texto retiro dois fragmentos:

“Costa Brites ou o Pintor e a Paz !
Aqui estamos frente a frente com a obra de um jovem. Estes dese­nhos de temática
dura, provocam-nos pelo impacto, um mal estar e aler­tam-nos para uma realidade implacável: um quotidiano agressivo, bélico, de filosofia e ação violentas: este mundo de sangue cor-de-rosa… Este nosso mundo!…”
“…Esta é a primeira exposição, embora nas Ilha Terceira e Faial, a “Galeria Gávea” tenha apresentado, numa coletiva, um desenho vigoroso e de temática implacável: “O Palhaço e a mulher atuante”, que marcaram com força a atenção do público (…) No fundo estes desenhos revelam um lirismo próprio. A indignação é um lirismo válido e atuante. (…) Há elementos simbólicos usados mostrando que a beleza é o único caminho da Justiça e vice-versa: A Justiça é a maior beleza do homem e a Paz o seu amor mais valioso! Açores − Oceano Pânico − 1969.”
Karlos Faria.

Já disse nos textos que aqui publico, e toda a gente saberá disso, mormente as pessoas que viveram naquela época que esta linguagem e uma qualquer realização artística que falasse e exaltasse a ideia da Paz naquele momento histórico, poderia sofrer incómodos de diversa ordem, o menor dos quais seria a proibição ou encerramento do acontecimento em si.
Na exposição que foi feita do meu amigo Augusto Mota, artista de importância determinante no meio artístico de Leiria, primeiro em Angra, depois na Horta, em Maio de 1970, coube-me a mim a redação do texto de catátogo, aproveitado para – fazendo justiça ao artista – reforçar o carácter interventivo e os propósitos que dirigiam o “espírito Gávea”. O texto era encimado por uma citação de um dos lemas preferidos do autor: «O futuro não precisa de quadros: precisa de Ho­mens e de Cidades que os Homens possam habitar humanamente». Mais além lemos o seguinte:

“…Chamamos pintor vivo ao que pretende Arte para os outros e aspira à verdade para TODOS. Se a exposição que vedes é mais uma em que nos aparece a Arte confinada à sôfrega moldura dum quadro, não é porque o Pintor não deseje invadir, mais enérgico e funcional, as ruas, as casas, as coisas e o peito de todos nós. São esses os propósitos de Augusto Mota: a infalível re­cuperação do Homem pela ARTE, mediante a subtil invasão do Mundo por ela.” Ponta Delgada, Abril, Costa Brites

Os reflexos semânticos do “espírito Gávea”

Os títulos das obras que Augusto Mota apresentou nesta exposição, independentemente do seu notável valor plástico, refletem bem o que venho dizendo: Sistema concentracionário; Ninho de pedras; Silhueta pânica; Cidade apodrecida; Esperança; A sentinela; Torre mecânica; Derrocada; A cidade agoirenta; Monstro metálico, entre outros exemplos.

Augusto Mota - desenho

O particularíssimo universo lírico de Augusto Mota num trabalho seu de 1962

Nesta altura dos acontecimentos já seria possível começar a fazer uma apreciação do que acima já chamei “o espírito Gávea”, através da análise intertextual da denominação das obras expostas. Esse domínio está, evidentemente, muito marcado pela sensibilidade cultural de alguns sectores mais insatisfeitos desse período histórico. No entanto, o facto que se realça é o compromisso e a identificação que existe entre essa vontade e de grande número dos mais animados participantes da atividade da galeria. Para as pessoas mais curiosas, os textos de catálogos que estão aqui publicados são suficientemente elucidativos e com eles será possível construir facilmente o diagrama energético das ideias do grupo e do movimento Gávea, a partir do respetivo campo semântico. Para citar um exemplo mais extremado ainda, passo a citar caso dos títulos – acentuadamente perifrásticos − de trabalhos meus: Lepra esquizofrénica – com amor para Hiroshima; O cancro-cor-das-rosas – com amor para Nagasáqui; A crocodilização da boca; Tema para gládio e panzer; Marte, o submisso – à memória de Gengis Kahn, percursor da guerra total.
Incluo abaixo um trabalho que herdou como título um desses neologismos levado por mim a várias realizações da Gávea: “tecnosilênciomaquinocracia”. O trabalho original com esse nome não sei onde ficou por entre as coisas que deixei nos Açores e não tinha (isso de certeza absoluta) os recursos técnicos que o quadro a seguir reproduzido ostenta, executado em Coimbra em 1980. (Para além do nome do trabalho torna-se particularmente conspícuo o perfil do objeto “telefone”, aquela coisa enorme, pesada e negra – neste caso ligada ao interior da figura – naquele tempo familiar mas que, passados trinta e três anos, já poucos reconhecerão!). O espírito desse trabalho, esclareço entretanto, é um fruto legítimo do “espírito Gávea”.

Tecnosilênciomaquinocracia, acrílico s/ madeira aparelhada, Costa Brites 1980

Tecnosilênciomaquinocracia, acrílico s/ platex aparelhado, Costa Brites 1980

No catálogo para a exposição de Temas Variados que a Gávea apresentou na Horta em Maio de 1970 Mora Porteiro reforçou ideias que venho apontando sobre a personalidade de Rogério Silva e sobre o conceito de intervenção que se ia apoderando da sua iniciativa e dos seus visitantes mais devotados:

Se Arte é o Belo-em-Mim e Obra de Arte o Belo-em-Mim-para-os-Outros, comunicar, compartilhar será a maneira de ser própria do Artista. Rogério Silva, motivado por esta «missão carismática», criou e desdobrou a sua “Galeria de Arte Gávea”, imprimindo-lhe, desde a primeira hora um invulgar dinamismo que não arrefece. Esta é a terceira exposição de Artes Plásticas que o Pintor traz à Horta. Dedica-a, muito esperançosamente, aos jovens da sua Terra. É que, os trabalhos que hoje nos apresenta, falam uma lin­guagem que muito naturalmente penetrará as almas juvenis, almas que ainda não foram endurecidas pelos academismos decadentes, almas generosamente abertas a tudo que é fruto desta Época que é a sua. Para alguns, tudo será inesperadamente novo! Outros, esteti­camente mais evoluídos, encontrar-se-ão com alguns testemunhos reais da Arte remoçada, na qual já acreditam.
Rapazes e raparigas do Faial!
Antes de entrardes nestas salas, exorto-vos a que vos dispais dos vossos preconceitos… Aproximai-vos e tentai um «encontro» com estes homens, melhor diria, com a alma destes homens que apenas desejam transmitir uma Mensagem que também é para vós! Recebei-a, sem tentar compreender, sem julgar… É ainda demasiadamente cedo para separar o trigo do joio! O que se vos pede é que acrediteis na honestidade, na autenticidade da Pintura atual. Rogério Silva não se engana e não vos quer enganar. Voltai aqui segunda, terceira vez… Se, em algum de vós, esta «semente» encontrar terreno propicio, poderá crescer e frutificar abundante­mente! Essa será para Rogério Silva que aqui volta impelido, ape­nas, pelo instinto do semeador que ama a sua Terra, a maior das recompensas. Mora Porteiro

Desenho de Augusto Mota datado, salvo erro, de 1966

Desenho de Augusto Mota datado, salvo erro, de 1966

Antes de vir para os Açores, foi em casa do meu amigo Augusto Mota, intelectual e artista, que conheci o poeta Carlos Faria. (A respeito deste encontro e suas consequências peço aos visitantes que entrem na página que dedico a “Carlos Faria e eu”, publicado junto no sector da Memória). Augusto Mota foi um expoente notável da cultura e do meio artístico leiriense, onde não faltavam valores, aliás, de várias gerações e de várias disciplinas da expressão artística. António Caseiro, meu amigo de infância e companheiro de brincadeiras juvenis, era muito dotado de talentos vários, artista plástico, músico, poeta inspirado e detentor de uma cultura muito original, aos quais não veio – infelizmente – a dar a continuidade desejável. Foi um dos artistas de Leiria que passou pelas realizações da Galeria Gávea, primeiro na exposição na Horta de Temas Variados de que adiante falarei, que teve lugar ali em Maio de 1970. Sobre o fantástico que se insinuava nos seus trabalhos, foram estas as considerações que nos foram transmitidas por Augusto Mota:

O Fantástico é um desafio, um desafio ameaçador à ordem das coisas e ao próprio e inconsciente terror perante uma lógica que não se pretende subverter, mas antes destruir para então adivinhar a construção de uma nova e total harmonia. Há, assim, um subtil prazer espiritual e físico nestas ousadas propostas que viajam, ou fazem viajar, por horizontes longínquos onde se projetam desejos e ações e se libertam as mãos para outras oferendas.
Tal viajar é uma participação ativa e conscienciosamente controlada ao nível do querer, uma recusa em regressar à tensão física animal que leva ao estado primitivo da agressividade, uma permanente invenção de mitos em metamorfose, onde a angústia se disfarça de formas voluptuosas de significação polivalente quase indeterminável, mas sempre purificadora. Este evoluir do significado, esta inconstância dos dados propostos são a própria essência do Fantástico e da simbologia universal que o anima, satisfazendo os espaços pânicos e inquietos do artífice e do espetador e ajudando, assim, ambos na tarefa de construção, aqui e agora, de uma Cidade bem humana, liberta não de mitos, mas dos monstros que avidamente a destroem. Leiria, Abril de 1970 Augusto Mota

Assim se nos deparou, ao longo de mais um episódio do “movimento Gávea”, uma das mais explicitas mensagens de uma vontade genuína, senão de transformar este mundo, de fazer com que nele fosse possível “libertar as mãos para outras oferendas” e de encetar a “construção, aqui e agora, de uma Cidade bem humana, liberta não de mitos, mas dos monstros que avidamente a destroem”.

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No dia 14 de Abril de 1970 a primeira página do diário “A União” (e o seu suplemento de letras e artes, Glacial sensacionalmente publicitado na primeira página com mais do que uma notícia e uma enorme ilustração – onde é que se poderá ter visto coisa semelhante onde quer que fosse no país que é Portugal?!…) era uma janela aberta sobre as iniciativas artísticas da Galeria de Arte Gávea. À esquerda em baixo vê-se a notícia do primeiro aniversário da galeria e da respetiva exposição, em cima o anúncio que remetia para actividades do suplemento de letras e artes “Glacial” e, ao centro – em grande formato – um linóleo de Augusto Mota. Mesmo procurando bem julgo que será raríssimo encontrar jornais diários em Portugal que, de forma tão decidida, tenham assumido uma abertura semelhante à noticiação de acontecimentos de ordem cultural ou artística. Logo abaixo uma prova autêntica do referido linóleo:

Fantoches, linóleo, Augusto Mota, 1963

Fantoches, linóleo, Augusto Mota, 1963

Voava bem alto a asa, certamente delirante, de uma juventude que atravessava o atlântico ao encontro do impossível. A ilha não se moveu nem um milímetro do cume das montanhas do meio do mar, onde morava e ainda mora. À espera de outras vontades insubmissas; à espera de outros impossíveis.
Em Junho desse mesmo ano de 1970 a Gávea organizava mais uma exposição, desta vez de fotografias de Marcelo Lopes. Sobre os vinte e três trabalhos expostos Noronha Bretão, para não fugir à regra das amplas liberdades de que gozavam todos os colaboradores do “movimento”, aproveitou (ele próprio referindo o “despropósito” eventual…) para fazer considerandos a respeito do compromisso dos artistas perante os valores estéticos e os valores sociais, sendo evidente a sua conclusão do primado destes perante aqueles. Coerente com esse princípio, não se inibiu de recomendar a Marcelo Lopes que, confiante no esteticismo do seu trabalho de estúdio, viesse antes pelas ruas, procurar o Homem, escrito assim, com maiúscula. Outros tempos, estimado leitor, outras vontades!…

Parece poder dizer-se que os valores estéticos não existem, ou não valem, independentemente das outras esferas axiológicas, nomeadamente da dos valores sociais. Pode é acontecer o artista tomá-los dessa manei­ra, ou pretender realizá-los em desarmonia — ou até em desacordo — com os valores sociais. E então, teremos, no primeiro caso, o artista que, evadindo-se da realidade social, se alheia das aspirações da sociedade em que vive, tomando implicitamente, uma atitude de conformismo; e no segundo caso, o artista que explicita essa atitude conformista, assumindo uma posição deliberadamente contrária a tais aspirações, deturpando e mistificando, até, aquela realidade. Claro que não se está a discutir a li­berdade que o artista tem — e deve ter — de escolher os seus temas: em face de tendências naturais, a criação artística pode valorizar-se neste ou naquele aspeto da realidade, mais ou menos afastado da problemá­tica social. E quanto menor for esse afastamento mais o artista se iden­tificará com o Homem na sua dimensão e responsabilidade social, e mais legítima se tomará a apreciação da obra de arte num plano que já não pode ser o puramente estético. Parece, portanto, não constituir pecado de lesa-estética apreciar a obra de arte pelas suas implicações sociais.
— Tudo isto a propósito (ou a despropósito?) desta exposição de fotografia que a Galeria Gávea promove. Marcelo Lopes é um esteta da máquina fotográfica. Tem uma acentuada preferência pelas fotografias de estúdio. Digamos que é um poeta que usa a película para se expressar. Teremos dito tudo? Acreditando que «na Arte o que importa é o Homem» não podemos deixar de pensar em Gageiro ou Cabrita… E não podemos deixar de esperar que a máquina de Marcelo Lopes venha, pelas ruas, procurar o Homem. Porque procurando-o se encontrará. Noronha Bretão.

O continente, outro arquipélago a conquistar

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Os amigos que vinham traziam novas desse outro arquipélago, e os que iam levavam novas de Angra. Ivone Chinita foi uma das colaboradoras da Gávea que proporcionou esse gesto. Gostava francamente de ser mais detalhado no tratamento dessa figura de poetisa e de mulher de iniciativa que foi Ivone Chinita, mais tarde esposa do notável escritor e intelectual de grande sensibilidade que foi J. H. Santos Barros. As consequências naturais do devir dos seres que a todos envolvem subtraíram-nos a presença dessas duas pessoas, mediante uma passagem para a qual nunca é cedo nem tarde – a morte, que a todos visitará. Aos dois, por nos terem deixado o luminoso sinal do seu valor, o meu abraço e a minha homenagem de fraternidade e o perene sentido de presença a que estão – inevitavelmente – associados:

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Duas obras muito significativas, a de Santos Barros de 1977 e a de Ivone Chinita de 1970, com capa de Rogério Silva e edição da Gávea.

Ivone Chinita

Digo fome − é nome de livro!… Digo fome − é nome de poesia!… Lê-se lento, como quem sulca um mar novo. Lê-se veloz e aflito − com flores amargas a rebentar dos olhos e com o gosto forte de lançar fundo a âncora no porto convulso da irmã humanidade. Lê-se com o sentido desperto de quem espera encontrar na música das palavras o sabor vivo da verdade. Digo Fome, publicação nº 1 da Coleção Gávea-Glacial chega-nos de Angra. Vem datado do MAR e assina-o Ivone Chinita. Não pretendemos, ao apresentar autora e livro, ir longe nas considerações em que o leitor mesmo deverá poder e querer substituir-nos. Desejamos tão-somente alertar quem queira VIVER POESIA para a experiência de cáustica realidade humana − pessoal e social − que nos dá a beber DIGO FOME. Na juventude da Autora (20 anos) encontrámos uma sua surpreendente calidez de beleza. Da sua experiência vivida (tem sido orientadora dos cursos de extensão agrícola familiar em Trás-os-Montes, no Alentejo − donde é natural − e agora, nos Açores) fala-nos a incisiva sensibilidade de alguns dos seus poemas. O mais é uma longa-curta aventura de enérgica beleza plástica e robusto poder de síntese que encontraremos nas linhas de DIGO FOME − nome de livro. DIGO FOME − nome de POESIA!…

Costa B.

Raquel Costa e Silva, autora do texto de catálogo da exposição de Grândola de temas variados, coloca a questão da “ilha” quase nos mesmos termos que eu acho que deve colocar-se: uma pessoa pode estar numa ilha e ter uma visão cosmopolita do mundo ou pode viver numa grande cidade e viver completamente “insulado”:

Uma pequena Ilha, situada em pleno Atlântico envia uma mensagem de Amor para uma Vila Alentejana… E, não será essa Vila afinal uma Ilha também? Não será cada povoação do Alentejo, cada Monte, uma pe­que na Ilha perdida na planície escaldante? Sim, só quem já provou a canícula, viu a calma a tremer sobre o restolho ressequido, procurou ansioso uma sombra amiga para repousar na hora de calor, bebeu do poço dum brejo para matar a sede terrível, é que sabe verdadeiramente como a planície pode isolar e tornar cada pequena povoação numa Ilha, para todos aqueles que não possuem um automóvel, ou não podem tomar um comboio até à povoação mais próxima…
No entanto, não há mar encapelado que resista ao Amor dos Homens, nem planície escaldante que os possa deter. Se cada homem sem Amor se pode tornar numa Ilha, ina­cessível a todos os seus semelhantes, os Homens que Amam trans­põem o Oceano Atlântico, temido pelas suas tempestades, a pla­nície Alentejana em pleno Agosto, mesmo sem ter um «espada» com ar condicionado, nem um «avião» particular… Estes quadros que chegam a Grândola, enviados pela Galeria Açoriana de Arte Gávea, de Angra do Heroísmo — são uma men­sagem de Homens que amam os seus semelhantes, comunicam o seu Amor através da Arte, da Poesia… Enviam para Grândola isolada na planície alentejana, o sen­tir da sua alma de Ilhéus que não teme o mar e é capaz de transpor o Atlântico para amar os homens da planície. A ligação foi feita por uma jovem Alentejana — Ivone Chinita — que ama todos os homens que lutam e sofrem, sonham e trabalham, em qualquer parte do Mundo… Sim, as verdadeiras Ilhas só existem, nas almas dos Homens e das Mulheres que não Amam. Raquel Costa e Silva
− Angra do Heroísmo, 20 de Agosto de 1970

Noutra iniciativa transportada para Grândola por Ivone Chinita viajaram fotografias de Marcelo Lopes. O catálogo insere um curto mas belíssimo texto de Emanuel Félix, felizmente mais específico a respeito da obra e da personalidade de Marcelo Lopes do que aquele que lemos anteriormente:

Marcelo Lopes teve o propósito de vos trazer, através desta dúzia de belíssimas fotografias, a sua mensagem de homem, pro­fundamente tocada de nostalgia e lonjura. É por isso que fala em termos de ilha, ilha de clima atlântico, pequena e absorta, onde as casas e as pessoas são navios varados olhando os longes de água em que perpassam velas quase irreais e pairam ganhoas com asas de bruma. Paisagem diferente da do vosso gigantesco Alentejo esta, com bancos de jardim despovoados, espessos ramos por onde o sol receoso se embrenha, velhas torres encharcadas de sombra, poentes de funda melancolia.
Artista para quem a fotografia não tem segredos, Marcelo Lopes evidencia neste conjunto de obras o seu talento de poeta. Até nos retratos, em que é exímio, a insularidade se adivinha. Esta, creio, a mensagem humana e (porque assim) poética que — sob os auspícios da Galeria Gávea — um artista de real valor vos quis enviar. Só por Amor. Emanuel Félix

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Com o calor de Agosto (para a Gávea não havia férias e as épocas eram sempre altas) Carlos Faria trouxe do continente mais uma artista pela qual nutria imensa admiração, para mostrar os seus trabalhos − Margarida Tamegão, que tive o prazer de entrevistar em Ponta Delgada para o jornal Açores e cujo texto lamento ter perdido. Os seus desenhos da paisagem citadina, aquela que mais dizia às próprias inclinações da personalidade da artista, eram de uma fluência criativa, duma naturalidade tal, que nos levavam a entender a cidade como um espaço luminoso de serenidade poética. Uma breve investigação na internet a respeito do seu nome é absolutamente infrutífero. Nada consegue encontrar-se. É pena que tanta coisa bela esteja assim fora do alcance da maioria. E o pior dessa ausência é que arrasta consigo o próprio esquecimento das pessoas, do seu itinerário e da sua sensibilidade. Oxalá os seus desenhos perdurem bem guardados algures e alguém os revele para todos nós, um dia destes.

30 exposições em 19 meses

Em Novembro de 1970, no 24º aniversário do Clube Asas do Atlântico, A Galeria de Arte Gávea, o suplemento literário “Glacial” do Jornal “A União” e o programa “Vertical” das artes e das letras da estação emissora “Asas do Atlântico” organizavam em realização especial uma exposição coletiva com 40 obras de quase vinte autores. O texto da autoria de Carlos Faria, muito belo e muito vibrante, diz-nos do formidável impulso que este “caixeiro viajante” da arte e da cultura foi dando ao longo do tempo a este grupo, que depois “revela” um movimento nascido na Ilha Terceira, mas cujo desígnio é o que eu chamo uma incansável “conquista de arquipélagos”. Carlos Faria, anunciava já a extensão da Gávea às Flores e ao Corvo, depois de Grândola no Alentejo pela mão de Ivone Chinita e com as últimas, mas fortemente significativas extensões à Nova Inglaterra e à mais que simbólica presença em Paris com artes das e para as crianças de França e dos Açores. O texto de Carlos Faria (bem como a totalidade do catálogo respetivo desta 30ª realização da Gávea e de seus amigos) bem merecem presença completa nestes escritos e aprofundam o que se diz a respeito do “espírito Gávea”:

A Galeria Açoriana de Arte «Gávea» realiza a sua 30.ª exposição em 19 meses. E realiza-a em Santa Maria! Ilha, terra, ou pátria, como queira­mos, Santa Maria é um ponto alto a considerar na paisagem, sobretudo humana do arquipélago. É uma ilha que nos merece especial ternura, queremos dizer: solidariedade! Daí, esta exposição revestir-se de especial cuidado no interesse de arte e fraternidade! A Galeria «Gávea» está em Santa Maria para a festa legítima do espírito independente, ou melhor, livre na sua posição de consolidar-se no verbo DAR, nesta camaradagem ombro-a-ombro que o espírito social eleva para a igualdade. A Igualdade pela arte, pelo pensamento, pelo trabalho, é o voo justo onde verticalmente se encontram os homens. A geografia deixou de ser lugar para passar a ser causa! Santa Maria não está melhor do que as suas irmãs, isoladas e cercadas, dos grupos Ocidental e Central, e insere-se, como elas, nos 9 palcos dramáticos, onde o povo açoriano representa o seu drama! Ilha Maior, pelo povo, pela geografia e pela história, Santa Maria está nos olhos e na consciência de todos aqueles que, ilhas e pessoas, lhe são fraternas e constantes! De todas as exposições, realizadas pela Gávea, esta é a que maior razão dá e consubstancia a existência do grupo gávea, à sua moral de penetração artística, o que equivale a dizer, de consciência! Talvez pela primeira vez no arquipélago aquilo que é duma ilha pertence a todas as ilhas: A Gávea revela um movimento nascido na Ilha Terceira mas que envolve todas as ilhas, envolvendo colaboradores, naturais de S. Mi­guel, Terceira, Faial, S. Jorge, Pico, Graciosa e Santa Maria. O encontro com as Flores e Corvo está no nosso itinerário e ele acontecerá. A coletiva que se trouxe a Santa Maria tem finalidade didática, por um lado, e social, por outro. Trata-se duma amostra de realidades de imaginação e de arte oficinal, e sobretudo um chamamento às realidades socioculturais a que a Arte, inevitavelmente, como arte e linguagem social, ergue e impõe! A Arte é comunitária: a arte é o sentido do grupo: aldeia, cidade, universo! A história da arte é a história da humanidade. Quem menosprezar a arte de um povo, escreve história para o passado: Isto é: morre-no-começo-do-fim! Diz a escritora Natália Correia que «a poesia é para Comer». Equivale a afirmar que a criação artística é justiça e caminho! A arte é como o pão legítimo: morde! Daí os açaimos, as páginas em branco, as escolas bombardeadas, os professores mudos! Esta exposição que a Gávea realiza em Santa Maria, de colaboração com o programa de Letras e Artes do «Emissor Asas do Atlântico» e do suplemento literário «GLACIAL» do jornal A União, comemora o sinal de que os vivos estão vivos e de que os mortos de vida vertical, nos deixaram a esperança, da sua mensagem, de vivos-eternos! Esta exposição é o sinal de que estamos vivos e reclamamos os Vivos! Oceano Atlântico, Novembro de 1970. Carlos Faria

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Montagem gráfica da lista de trabalhos expostos no Club Asas do Atlântico
Ao centro uma reprodução inserida no catálogo de um desenho de Rogério Silva

abaixo: Picasso – poema de Emanuel Félix também inserido no catálogo

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Os colaboradores da Gávea

Há um detalhe que se observa nos catálogos das exposições organizadas por Rogério Silva que constituiu um hábito agregador de boas vontades, isto é, uma estratégia de categorização de certos amigos que iam sendo “promovidos” por ele à categoria de “colaboradores” da Gávea. Este gesto tinha, além de outras finalidades, consagrar a colaboração oferecida e torna-la notória. Para serem integrados nesta lista, os respetivos amigos e colaborantes, tinham apenas que demonstrar o desejo, a disponibilidade e a identificação com os objetivos da ideia. Dado que vim também a integrar esse grupo de pessoas, sei que não havia “rituais de iniciação” nessa agremiação de boas vontades, nem o compromisso se estendia para além do que voluntariamente pudesse ser feito por cada um. O número desses colaboradores foi crescendo muito paulatinamente e até veio a estar em evidência nos últimos catálogos das iniciativas artísticas protagonizadas por Rogério Silva nos Estados Unidos da América, os últimos documentos que conheço no seu percurso e que ostentam (ainda) a alusão ao projeto que aqui designo como movimento, e de que o artista – a bem dizer – nunca desistiu, até que a força dos acontecimentos o reduziu ao silêncio final.
No catálogo do primeiro aniversário da Gávea, de Abril de 1970, já está está mencionado um grupo significativo, que viria a aumentar e a diversificar-se, segundo os locais onde se encontravam: Em Angra: Rogério Silva; Ivone Chinita; Maria Lusa Silva; Roberto Nunes e Karlos Faria. Na Horta: Rogério Silva, Karlos Faria e João Ávila; na Ilha de Santa Maria Laurindo Cabral, Carlos Faria e Rogério Silva.
Na minha exposição de Ponta Delgada, em Dezembro de 1970 integraram o conjunto de colaboradores da Gávea, além de Rogério Silva e Carlos Faria eu mesmo e João Carlos (Couto Macedo). É curioso notar que o nome de Carlos Faria aparece no catálogo de Ponta Delgada, no de Santa Maria e noutros grafado de forma normal. A intimidade com que em Angra eram melhor conhecidas as suas idiossincrasias levava a que o seu nome fosse grafado com “kápa”; Karlos Faria.
Nas realizações nos Estados Unidos começa a haver mais atenção às entidades patrocinadoras das exposições de Rogério Silva, nomeadamente a galeria “A Chama”, de New Bedford, cuja comissão responsável é indicada: Virgínia L. Cardoso (presidente), Frank C. Matos e Georgette Gonsalves, no caso da exposição de 1976, integrada no Festival realizado na Câmara Municipal de Boston. Em Abril de 1977 em exposição apresentada na Biblioteca Pública de Nova Bedford, ainda com o patrocínio de “A Chama”, foram indicados colaboradores em Portugal David de Almeida e Carlos Faria, nos Açores João Ávila e nos Estados Unidos: Em Boston, Frank C. Matos, em Providence: Onésimo Teotónio de Almeida e António Dionísio da Costa; em Bristol o Dr. Manuel Luciano da Silva. Em New Bedford, onde residia Rogério Silva no nº 188 da Myrtle Street era onde o grupo era mais numeroso: Tobias Paulo, Heldo Braga, Manuel B. Silveira, Manuel Medeiros e… o próprio Rogério Silva. Em documentos gráficos anexos todos estes elementos são publicados à parte.

A vocação multidisciplinar do movimento Gávea/Glacial

Recorrendo ainda ao catálogo do primeiro aniversário da Gávea em Abril de 1970, referido de início, pode observar-se que o movimento não estava limitado às artes plásticas e não perdia oportunidades para alargar o mais possível o âmbito das suas atividades. Era uma estratégia recetiva e o mais possível aberta às pessoas de acordo com o que se podia oferecer. O caso, por exemplo, da comunicação sobre A crise Sísmica de São Jorge de 1964, pelo Prof. Victor Hugo Forjaz, o colóquio em colaboração com o “Glacial”, suplemento literário do jornal “A União” e a tarefa editorial que, no fim do ano 70, já contava com três livros publicados e quatro preparados para a publicação.

10 um ano mos

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A seguir ao governador Dr. Teotónio Machado Pires, Rogério Silva, numa prova fotográfica de melhor qualidade que me foi deixada por este.

Há um detalhe na enumeração das iniciativas desse ano que convém comentar. Em Setembro está designada a Exposição “Relâmpago”, o que não dá – para quem lá não esteve – a mínima ideia do tema tratado. De facto melhor seria que fosse indicada como “Exposição-relâmpago”, e tenho o prazer de nela também ter estado representado. Foi muito falada e caracterizou-se pelo seguinte: numa sessão de cinema do Teatro Angrense foi organizada no átrio uma exposição que, por ser novidade, mobilizou muito a atenção das pessoas que entravam.
As sessões de cinema, como é normal, tinham um intervalo. Toda a gente saiu para vir dar uma olhadela de novo às coisas expostas. Os activistas da Gávea, entretanto, tinham retirado todo o conteúdo da surpresa, o que provocou uma certa moderada celeuma. Esse efeito foi motivo de certa discussão o que estava evidentemente nos melhores intuitos dos organizadores.
O que se me oferece dizer agora a respeito do título em epígrafe fica por aqui.

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